Este trabalho tem, provavelmente, muitas incorrecções. Colocam-se-me sobretudo três tipos de dúvidas:
• nalguns casos, é bem possível que eu tenha tomado por moçambicanismos expressões que são apenas criações individuais;
• outras vezes, posso ter considerado moçambicanismo uma expressão local, compreendida apenas pelos falantes da língua da região;
• finalmente, no caso de nomes de animais e plantas, é-me muito difícil saber quando é que os nomes que encontrei nas minhas pesquisas são realmente moçambicanismos ou são usados também noutras regiões de língua portuguesa – castanha de Inhambane ou maçaniqueira de Tete são obviamente moçambicanismos, mas amendoim do corvo sê-lo-á também?

As vossas críticas e sugestões (incluindo correcções de gralhas e de defeitos de layout), deixem-nas, por favor, nos comentários ou escrevam para

lucaslindegaard@gmail.com

Quando deixarem sugestões nos comentários e elas forem aceites e integradas no glossário, apagarei o comentário. Identifico sempre a pessoa que me sugeriu uma determinada entrada (com o nome e outros dados que constem do comentário ou do e-mail que escreve, a não ser, claro está, que me dê indicações em contrário). Prefiro que me escrevam para o e-mail acima ou que me deixem um contacto nos comentários, para poder haver diálogo sobre as vossas propostas.

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Ao fundo da página, há algumas notas sobre o português de Moçambique:

Instabilidade no uso dos pronomes objecto

Construção com nem no início de frase

Redobro


Pronúncia do português em Moçambique

Particularidades da voz passiva
A ++B ++C ++D ++E ++F ++G ++H ++I ++J ++L ++M ++N ++O ++P ++Q ++R ++S ++T ++U ++V ++X ++Y ++Z

Atenção: Opto por uma grafia aportuguesada de todos os empréstimos, pelo que uso, por exemplo, ca, que, qui, co e cu, em palavras que muitas vezes se escrevem com ka, kha, ke, khe, ki, khi, ko, kho, ku e khu. Assim, escrevo cabanga e não kabanga, muquero e não mukhero. O leitor deve ter em conta esta opção ao procurar palavras no glossário. Há também muita instabilidade na transcrição do som [š], ora com ch ora com x, pelo que devem verificar ambas as grafias possíveis. Por exemplo, a palavra que às vezes se vê grafada chicuembo, chikuembo, etc., aparece aqui como xicuembo.

Só as minhas definições e propostas etimológicas é que são... minhas!...

Quero deixar claro que o facto de citar, nos comentários às entradas, definições ou propostas etimológicas de outros dicionários não significa que concorde com elas. Nalguns casos, discuto-as ou assinalo a minha estranheza com um [sic]; noutros casos, limito-me a apresentar a informação sem a comentar.

A

aboboreira de Inhambane n. f. Bot. Telfairia pedata, castanha de Inhambane


aboboreira de Inhambane

abunhado n. m. Hist. colono que vivia nas terras do senhorio, obrigando-se a viver e a trabalhar nelas
A definição é do antropólogo e historiador Carlos Lopes Bento, cuja colaboração muito agradeço. Esta definição de abunhado pode encontrar-se no Glossário inserido nos Anexos da sua tese de doutoramento (As Ilhas de Querimba ou de Cabo Delgado - Situação colonial, resistências e mudanças (1742-1822), Vol.II, p. 1117-1131, disponível online). Na p. 6 do Vol. I do seu Glossário Luso-Asiático (Coimbra: Imprensa da Universidade, 1919) Sebastião Rodolfo Dalgado refere uma origem indiana do termo. Segundo este autor, a palavra abunhado significa, “na Índia, trabalhador que, nascido em terras de um patrão, era obrigado a servi-lo, mesmo não sendo escravo” e deriva provavelmente do persa bunyâd, “alicerce, fundamento, fundo”.

açafrada n. f. Bot. cártamo, Carthamus tinctoris [CVP]

acertar v. com dativo prender; apanhar (“a polícia desconseguiu de lhe acertar”)

achar [àchar] n. m. Cul. pickles de fruta ou legumes à maneira indiana (de manga, limão, cenoura, etc.) (do urdu achar)
Não se pode afirmar que seja propriamente um moçambicanismo, mas em Moçambique toda a gente sabe o que é achar, que é uma palavra de uso comum, o que não acontece, por exemplo, em Portugal.

acidentar v. i. ter um acidente (“Foi aqui que o Vasco acidentou”)

adimo n. m. Hist. inimigo; descendente de escravos ligados à família do senhor
A definição é do antropólogo e historiador Carlos Lopes Bento, cuja colaboração muito agradeço. No segundo capítulo do Volume I da sua obra As Ilhas de Querimba ou de Cabo Delgado - Situação colonial, resistências e mudanças (1742-1822), Carlos Bento Lopes explica que o termo, que é usado em diversos documentos portugueses, vem da palavra swahili hadimu, que Charles Sacleux, no seu Dictionnaire Swahili-Français, define como “criança ou descendente de africano libertado”.

afatado adj. bem vestido; fino, aperaltado, apinocado

afinal adv. usado como interjeição exclamação de surpresa, que corresponde a “ah, sim?” ou “não me digas!” em português europeu

ainda adv. ainda não (como resposta a perguntas sobre se algum evento já ocorreu) (“Já vieram os técnicos da TDM?” “Ainda.”)
Além dos outros usos iguais aos de outras variantes do português.

ajaua adj. e n. membro de um grupo étnico do Niassa; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua, yao

algodão bravo n. m. Bot. Gossypium herbaceum africanum [CVP]
Noutras variantes do português, o termo algodão-bravo designa outras plantas. No Brasil, refere sobretudo a espécie Ipomoea carnea.


almadia n. f. canoa; pequena embarcação (do árabe ± al-madia)
O termo encontra-se registado em todos os dicionários que consultei. O dicionário Priberam online e o dicionário Porto Editora definem almadia como “embarcação africana, esguia e comprida”. O dicionário Michaelis dá também essa definição, acrescentando que é “feita de um só tronco de árvore”, e dando conta de uma variante almandia. A palavra almadía também existe em espanhol e, quanto à sua origem, o dicionario da Real Academia Espanõla é mais preciso do que os dicionários portugueses: estes referem uma origem árabe al-ma’adia ou al-ma’adiya, ao passo que aquele especifica que a palavra vem do árabe hispânico alma‘díyya. A palavra almadie está registada em dicionários franceses e ingleses, afirmando-se às vezes que, além de uma canoa africana, a palavra pode também referir uma embarcação indiana de maiores dimensões. Na pág. 26 do Vol. I do seu Glossário Luso-Asiático (Coimbra: I. da Universidade, 1919), Sebastião Dalgado diz que “o termo [almadia] vogava na África austral (onde está em uso em landim) ao tempo dos descobrimentos portugueses, sendo depois levado para a Índia, onde penetrou no malaiala”. A primeira ocorrência da palavra de que dá conta é na obra de Cadamosto, escrita por volta de 1460. Dalgado não explica o itinerário da palavra, mas parece, portanto, que ela já se usava em português antes de os Portugueses terem chegado à África Austral. Não me parece que almadia seja um moçambicanismo em sentido estrito, mas penso que a palavra foi e é mais usada em Moçambique do que nos outros países de língua portuguesa, donde a sua inclusão no glossário.

amanhecer v. i. (alguém amanhecer) ficar acordado até de manhã, passar uma noite em branco, fazer uma directa; (alguma coisa amanhecer) ficar toda a noite num lugar

amendoeira de fudaman n. f. Bot. tipo de árvore, Terminalia catappa [CVP]

amendoim do corvo, amendoim do trevo n. m. Bot. tipo de ervas da espécie Oxalis, azedinha, erva azeda, trevo falso [CVP]
No Brasil, chama-se amendoim-bravo.

ampola n. f. garrafa de cerveja de 340 ml (ver bazuca)
Contribuição de Miguel, Maputo.

animar v. i. ser bom; dar prazer (“chima de milho é melhor, mas aquela caracata também anima”)

antepassado adj. penúltimo
Esta acepção do termo aparece registada no dicionário Porto Editora como sendo moçambicana.

apa n. f. Cul. acompanhamento de diversos pratos, feito de um polme frito, que também pode ser comido com doce, como panqueca
O dicionário Priberam online define apa como “bolo de farinha de arroz e azeite de coco usado na Ásia”, uma descrição que não se aplica bem pelo menos às apas moçambicanas. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende dá um sinónimo exacto para apa: roti ou rothi. A Wikipédia em português tem uma entrada apa.

areca n. f. Bot. noz moscada
A palavra areca designa normalmente outra noz, a noz de betel, ou pinang, fruto da palmeira de betel, Areca catechu. Só ouvi esta expressão em Quelimane, não sei se será local.

aringa n. f. Hist. tipo de fortificação do séc. XIX paliçada, chuambo (séc. XVII), mussito (séc. XVIII) [HM]
O dicionário Priberam online define aringa como “campo fortificado (em África)”. O dicionário Porto Editora diz que aringa é um “campo fortificado, entre os habitantes da África Ocidental (???)” e que a palavra vem do cafreal [sic] aringa. O dicionário Houaiss confirma esta etimologia, propondo para a palavra uma origem cafre [sic] (colaboração de Margarida Castro). As referências a aringas que encontro em Google dizem todas respeito a Moçambique, pelo que não me parece provável que a palavra tenha um uso tão geral como propõem os dicionários referidos. Eça de Queiroz usa a palavra, na sua tradução de King Solomon’s Mines de Rider Haggard, para traduzir a palavra kraal do original inglês.


aringa de Massangano, perto de Tete, em 1888 (gravura de A. de Castilho em Relatorio da guerra da Zambesia, Lisboa, 1891).

aumentar v. t. pôr (“ele já aumentou pneus novos no carro”); antónimo de diminuir = tirar

azedinha n. m. Bot. tipo de ervas da espécie Oxalis, amendoim do corvo, amendoim do trevo, erva azeda, trevo falso [CVP]
No Brasil, chama-se amendoim-bravo.

B

babalaza, babalaze n. f. ressaca (de bebedeira)
O dicionário Porto Editora regista o termo como moçambicanismo e propõe uma etimologia changana, babalaza, por sua vez derivada do ronga (ku)babalasa. A etimologia que mais vezes encontrei referida para os termos afrikaans e inglês (da África Austral) que correspondem a babalaza, respectivamente babalaas e babalass, é o zulu ibhabhalazi. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, sugere o contrário: que os termos bantos têm origem no termo afrikaans.

bacela n. f. oferta ao cliente, normalmente aumentando ligeiramente a quantidade do produto comprado
A minha avó, lisboeta, usava a palavra contrapeso para designar este tipo de oferta, mas não sei se tem outro nome em português europeu, até porque em Portugal a prática não é comum, e muito menos standard, ao contrário do que acontece em muitos lugares do mundo. O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo, propondo como étimo a palavra changana bàselà “id.”. Lopes, Sitoe e Nhamuende, no seu Moçambicanismos, apresentam varíos étimos possíveis, todos semelhantes, em xhosa, zulu, afrikaans e nas línguas tsonga.

babar v. t. procurar obter as boas graças de alguém pelo elogio, engraxar

baiete interjeição? salve!, saudação a um chefe tradicional e, por extensão, a uma pessoa a quem se deve respeito
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo. Em Moçambicanismos, Lopes, Sitoe e Nhamuende dizem que a palavra vem do zulu bayede, forma dialectal de balethe, e que era a expressão usada para saudar Ngungunhane.

baigonar v. t. pulverizar com insecticida (de Baygon ®)

bairro n. m. muitas vezes usado no plural parte periférica de uma cidade em que predominam as construções de materiais precários (por oposição a cimento), caniço

baixa n. f. terreno de cultivo junto de um rio

bala adj. só feminino? bonita (uma pessoa)

balacate n. m. planta gramínea usada para infusões e como tempero, Cymbopogon citratus
A planta tem dezenas de designações noutros países de língua portuguesa, das quais as mais comuns creio que são citronela, chá-príncipe e capim-limão (esta última no Brasil). Contribuição de Miguel e Soraia, Maputo. A designação moçambicana é parecida com outra que encontrei, belgate ou belgata.

balalaica n. f. Vest. fato completo de calça e camisa de 2 ou 4 bolsos e manga curta, conhecido em Portugal como safari
O dicionário Priberam online regista o moçambicanismo balalaica, “tipo de vestuário composto de calça e camisa”, sem referir etimologia imediata. É bem possível que se trate de uma marca.

banca fixa n. m. pequena loja, quiosque
A forma mais comum de comércio é a banca, que é, naturalmente, bastante móvel. A banca fixa é, assim, uma banca de um nível superior. Na realidade, porém, não é uma banca, mas sim uma casa.

bandazio n. m. Hist. criado dos senhores e senhoras afro‑portugueses [HM]

baneane n. m. 1. Hist. comerciante indiano das costas africanas do Índico; 2. por extensão, comerciante indiano
O dicionário Porto Editora regista a palavra, só no plural [?]. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende regista as variantes baniã e baniane. Ambas as obras dizem que a palavra vem do sânscrito, segundo Moçambicanismos, através do gujarati vaniyan, plural de vaniya, e, segundo o dicionário Porto Editora, através do hindu baniyan. A palavra banian também existe em inglês e o Concise Oxford concorda com a origem gujarati da palavra, de vaniyo “homem de casta de comerciantes”.

banga n. f. Fam. festa, farra

bangue n. (m. ?) Calão cânhamo indiano, Cannabis sativa, marijuana, djadja, passa, soruma (do persa bang ou urdu bhang, do sânscrito bhanga)
O termo, sempre com definições incorrectas, figura nos dicionários consultados, sem ser referido como moçambicanismo. É verdade que se encontra em textos portugueses antigos, por exemplo, em descrições da Índia, de onde é originário. Em português contemporâneo, porém, nunca o ouvi usado a não ser por moçambicanos.

banguene n. m. botequim, taberna

banheira n. f. café duplo, abatanado

banja n. f. reunião de anciãos; reunião de família
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo, atribuindo-lhe uma origem nhúnguè, e acrescentando-lhe um segundo significado, o de “casamento; lar”. O Priberam online também regista o termo, dando-o como masculino e definindo-o como “conselho, assembleia de hindus, em Moçambique”, definição que não corresponde ao seu uso em português de Moçambique actual. Vi o termo banza usado para descrever uma reunião de chefes da zona de Inhambane, num texto em 1858, não sei se tem alguma relação com este banja. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, explica que o termo deriva do zulu e xhosa ibandla, “assembleia; reunião clânica; congregação religiosa”, pelo changana bhandla.

bara n. f. carrinho de mão (do inglês (wheel) barrow, “id.”)
Só ouvi em Manica, provavelmente devido à proximidade do Zimbábuè.

bare n. m. Hist. mina (de minério) [HM]

baruísta n. Hist. defensor do domínio independente do Báruè, aquando das campanhas de 1902 ou da revolta de 1917 (de Báruè, topónimo) [GL]

barulhar v. i. fazer barulho (“mas ali estão a barulhar muito todas as noites”).
Os dicionários registam a forma com este significado, mas só a ouvi em Moçambique.

bassopa ver passopa

batata doce do mato n. f. Bot. Ipomoea aquatica

batata reno n. f. Bot. batata comum, não doce, Solanum tubesorum
Reno é a palavra suaíli e de outras línguas bantas que significa “português” e vem da palavra reino, com que os portugueses designavam a sua terra.

batepapista adj. e n. Fam. pessoa que fala muito, conta muitas histórias, exagerando um bocado e pondo algumas mentiras pelo meio, tanguista, endrominador, papudo.
Provavelmente, a expressão não é um moçambicanismo, mas antes importada do Brasil.

bater v. t. Fam. roubar

bazar n. m. mercado, praça

bazo n. m. Hist. escravo encarregado de tomar conta dos escravos [HM]
O dicionário Priberam online define o moçambicanismo bazo como sendo específico de Quelimane (deve provavelmente entender-se como da Zambézia) e significando “juiz cafreal” [sic].

bazuca n. m. cerveja de 550 ml (ver ampola)
Contribuição de Miguel, Maputo. A expressão aparece registada em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, mas é apresentada como referindo-se a uma garrafa de 1 litro e tendo caído em desuso.

bicho n. m. Hist. empregado de casa, porteiro [HM]

big adj. Fam. grande (palavra inglesa)

biri‑biri n. m. tambor de guerra [GL]
O dicionário Porto Editora define biribíri como “tambor de guerra usado em África”. O Priberam online define biribiri como “tambor de guerra em forma de charuto grosso e curto usado pelos negros”. É bem possível que não seja de facto um moçambicanismo.

bitonga adj. e n. grupo étnico de Inhambane; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua.
O dicionário Porto Editora define Bitongas [sic] como sendo um “povo que vive nas proximidades da serra da Gorongosa”, o que é incorrecto.

bizeniceiro n. m. comerciante, vendedor informal (do inglês business, “negócio”)

boca n. f. Hist. pagamento para se obter uma audiência com um chefe [HM]

boss, boiss n.m. sobretudo como vocativo patrão, tratamento usado sobretudo por vendedores para os potenciais clientes, principalmente se forem brancos...

bombar v. i. Calão fugir, pirar‑se, abrir

bongolo n. e adj. burro; desajeitado; ignorante
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo e propõe uma origem changana, mbòngòlò, “burro”. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende apresenta a variante bongola, com o mesmo significado, e dá como étimo último o zulu imbongolo, “mula, asno”, pelo changana bongolo. A palavra parece ser usada para designar o animal burro noutras línguas da região.

brada n. m. Fam. compincha, amigalhaço (do inglês brother, “irmão”)

brai n. m. churrasco (do afrikaans braai, “id.”)

buiça, buissa v. t. defectivo, só com a forma da segunda pessoa (tu?) do singular do Imperativo (“buiça (tu) alguma coisa!”) Fam. dá, dá cá

bula-bula, bulabula n. f. conversa; conversa fiada
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo, propondo uma origem ronga (ku bula-bula, “conversar”). Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nahumende, diz que a palavra vem do changana kubula, “falar trivialmente”, e acrescenta ao sentido de “conversa informal”, o sentido de “boato”, que diz que não tem na língua original.

butaca n. f. Hist. 1. escravos domésticos 2. poder [HM] [GL]
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo butaca com o significado de “herança; sucessão”, propondo como étimos as palavras sena unthaka e nhúnguè utaka, ambas com o mesmo significado que butaca. Se se alargar a definição de escravos domésticos de modo a incluir chicundas (soldados escravos) e servos em geral, a relação entre butaca 1. e 2. é fácil de estabelecer, sobretudo num sistema onde o poder de um chefe não é compreendido como baseado no domínio de território, mas sim de pessoas (o sistema de tipo feudal que se chama em inglês enslavement e que eu não sei como se chama em português). A relação entre as duas definições encontradas por mim e a proposta pelo dicionário Porto Editora é também fácil de estabelecer.

C

cabanga n. f. Cul. tipo de cerveja tradicional, oteca, pombe
Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, explica que esta bebida é feita de farinha de milho, farelo de milho, água e açúcar, mas que também se pode utilizar farinha de mapira ou de mexoeira.

cabedula, cabedulas n. m. calções
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo e concorda com Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, sobre a etimologia da palavra: vem do nhanja kabudula, “id.”. A obra de Lopes, Sitoe e Nhamuende refere que a palavra era muito usada no período colonial.

cabritismo n. m. apelo à corrupção ou aceitação de ser objecto desta; num sentido alargado, aceitação de qualquer fraude, participando directamente nela ou fechando apenas os olhos, para obter proveitos pessoais, normalmente materiais; extorsão
A palavra vem de um provérbio, “O cabrito come onde está amarrado”. Lopes, Sitoe e Nhamuende explicam que se trata de uma tradução literal de um provérbio changana.

cabrito n. m. Zool. qualquer caprino, jovem ou adulto
Em Moçambique, cabrito é a palavra não marcada, como em português europeu é cabra.

cacana n. f. Bot. Planta, Momordica balsamina, usada para a alimentação e para fins medicinais, sobretudo em infusão
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo, definindo cacana como “planta trepadeira cujas folhas e frutos são comestíveis”. Segundo este dicionário, a palavra cacana vem do ronga nkakana. No Brasil, a planta é designada como balsamina de purga.


cacana

cacata adj. e n. Fam. agarrado ao dinheiro; pessoa agarrada ao dinheiro, avarento, forreta, sovina
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo, com este mesmo significado e fá-lo derivar do changana kakata, “id.”.

cafre n. e adj., cafreal, adj. Hist. 1. designação genérica dos povos nativos da África Austral; relacionado com estes povos 2. (sobretudo no séc. XX) Muito ofensivo, com conotações fortemente racistas negro, em geral; bárbaro, rude, selvagem (do árabe kafir, “infiel”)
A história das palavras cafre e cafreal é complexa. Cafre é usado desde muito cedo, amalgamando os povos nativos da zona. A palavra foi adquirindo conotações muito racistas e muito ofensivas e, ainda durante o período colonial, o seu uso foi desaparecendo. Muitos dicionários assumem que a palavra designa de facto uma etnia e a sua língua, o que não é correcto. Curiosamente, hoje em dia, há uma expressão em que, na minha experiência, essa conotação não se mantém, talvez porque se tenha já perdido a consciência da sua origem: galinha à cafreal. Lopes, Sitoe e Nhamuende, na sua obra Moçambicanismos dizem o mesmo: “Apesar do contexto em que começou a ser utilizado, o termo cafreal na expressão galinha à cafreal, há muito utilizada, não tem tonalidades semânticas depreciativas; significa, sobretudo, o modo local de preparação da ave e o tipo de temperos usados, em particular o piripiri” (Agradeço a Margarida Castro, que chamou a atenção para o facto de a palavra merecer ser considerada um moçambicanismo, por ter aparecido como palavra portuguesa, nesta parte do mundo).

cafurro n. m. casca do coco, usada como lenha

calamidades n. f. p. roupa em segunda mão, xicalamidades (de “donativos para apoiar as vítimas das calamidades naturais”)

camisete n. f. Vest. camisola de manga-curta, t-shirt

campainhar v. i. tocar à campainha

cana (doce) n. f. Bot. plantas do género Saccharum, especialmente Sachharum officinarum, cana do açúcar
Como a palavra cana não se usa para referir outros tipos de cana (usa‑se bambu), não há confusão

caneco n. m. (f.?, adj.?) goês; de ascendência goesa
Não se trata de um moçambicanismo em sentido estrito, mas é muito provável que, actualmente, a palavra se use muito mais em Moçambique do que noutros países de língua portuguesa, e é isso que justifica a sua inclusão neste glossário. O dicionário Porto Editora regista o termo como sinónimo de canarim e, portanto, com o sentido mais abrangente de “pessoa natural da antiga Índia portuguesa”. Em Moçambicanismos, Lopes, Sitoe e Nhamuende dizem que caneco se usa “para designar o natural de Goa (indiano cristão) ou os seus descendentes”, e chamam a atenção para “uma certa conotação depreciativa” do termo. Estes autores discutem ainda a etimologia da palavra, propondo duas possibilidades, ambas do tamil: kanakapilei, “escrivão, contador, gerente, administrador” ou kanakan, “membro de uma casta do Malabar”.

canfumo n. m. chefe tradicional, abaixo de um samassua

canganhiça n. f. aldrabice; batota; trabalho mal feito
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo, considerando-o de origem ronga (de kanganyisa). Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, diz que a palavra é comum a várias línguas do Sul.

canhar v. t. (alguém canhar alguma coisa ou alguém) Fam. dar pancada em; (fig.) dar cabo de aleijar, magoar; (fig.) estragar, destruir
Tanto o dicionário Porto Editora como o dicionário Priberam online registam canhar como o sentido de “varrer com canho”, sendo que canho é uma “vassoura feita de codessos”. Por muito que a ligação entre “varrer com uma vassoura” e “bater, estragar” seja fácil de estabelecer, parece-me altamente improvável que seja essa a origem da expressão. Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, têm uma entrada khenhar ou quenhar, palavra com origem no ronga kukhenya e com o significado de “dar caneladas” e, por extensão “prejudicar o próximo nos seus intentos” . Parece-me certo, então, que a expressão que eu ouvi coincide com esta, com uma pronúncia ligeiramente alterada – ou então eu ouvi mal. É possível que o significado se tenha alargado ainda mais, ou que eu não tenha compreendido a expressão com exactidão, das vezes que a ouvi.

canho, canhoa n. f. Bot. fruto do canhoeiro, Sclerocarya birrea (ou caffra), ocanho (do ronga nkanye, segundo [PM])
O dicionário Porto Editora regista canho como moçambicanismo, também com este significado. A etimologia é diferente da apresentada em PM: o changana kanyi. O mesmo dicionário regista para a forma canho um segundo significado, o de bebida preparada com este fruto, “usada nas festas e em memória dos antepassados”. É deste fruto, conhecido nos países vizinhos como marula, que se faz o conhecido licor Amarula.

canhoeiro n. m. Bot. tipo de árvore, Sclerocarya birrea (ou caffra), ocanheiro (ver canho para discussão da etimologia)
O dicionário Priberam online regista canhoeiro, definido como “árvore de cujo fruto se extrai uma bebida usada em cerimónias tradicionais no Sul de Moçambique”.


canhoeiro e canho

caniço n. m. parte periférica de uma cidade em que predominam as construções de materiais precários (por oposição a cimento), bairro (de bairro de caniço)

caniço africano n. m. Bot. Phragmites mauritianus [CVP]

canimambo ? obrigado/a
A grafia mais comum é com k (que é a proposta em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende), que não registo aqui por estranha à lógica da ortografia portuguesa. O Dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo também com c. Estes dois dicionários dão a palavra como sendo um empréstimo ao ronga, propondo o dicionário da Porto Editora que o étimo último seja o chonai khani mambo”, literalmente “danço para o mambo”.

cantina n. f. loja geral, botica

cantineiro n. proprietário de uma cantina, lojista (de cantina)

capenta, peixe-capenta (muitas vezes grafado kapenta) n. m.? Zool. espécie de peixe pequeno de água doce, Limnothrissa miodon, que foi introduzido na albufeira de Cahora Bassa e que aí é pescado em grandes quantidades


capenta

capere pequeno n. m. Bot. tipo de erva, Paspalidium geminatum [CVP]

capim arroz, capim arrozeiro n. m. Bot. tipo de erva daninha, Echinocloa corona, deolinda, falso arroz [PD]

capim de hipopótamo n. m Bot. tipo de erva, Ischaemum fasciculatum [CVP]

capim digitada n. m. Bot. tipos de ervas da espécie Digitaria, pulseira de menina [CVP]

capim do Chire n. m. Bot. tipos de ervas da espécie Urochloa (de Chire, topónimo) [CVP]

capim do Limpopo n. m. Bot. tipo de erva, Echinochloa pyramidalis (de Limpopo, topónimo) [CVP]
No Brasil, é conhecida como canarana.

capim elefante n. m. Bot. tipo de erva, Pennisetum purpureum [CVP]
Não é designação exclusiva de Moçambique, mas parece antes tratar-se de uma designação geral em português.

capim espiga de prata n. m. Bot. tipo de erva, Imperata cylindrica, capim pluma de prata [CVP]
Encontrei as designações brasileiras de barão-vermelho e grama cogan.

capim estrela n. m. Bot tipo de erva, Dactyloctenium aegyptium [CVP]
Encontrei as designações brasileiras de capim-mão-de-sapo, capim-calandrini, capim-pé-de-galinha e pé-de-galo.

capim niapa n. m. Bot. tipo de erva daninha, Rottboellia exaltata [PD]
Encontrei a designação brasileira de capim camalote.

capim parte-enxada n. m. Bot. tipo de erva, Panicum maximum [CVP]
Encontrei várias designações brasileiras relacionadas com a Tanzânia (capim massai, capim tanzânia, capim mombaça).

capim pé de galinha n. m. Bot. tipo de erva, Eleusine indica, naxenim bravo [CVP]
Capim pé de galinha parece ser também um dos nomes comuns da planta no Brasil.

capim pluma de prata n. m. Bot. tipo de erva, Imperata cylindrica, capim estrela de prata [CVP]

capim rosália do areal n. m. Bot. tipo de erva, Eragrostis ciliaris
Encontrei variadíssimas designações brasileiras: capim mimoso, capim penacho, capim de rola, capim de canário, capim pelo de rato…

capinar v. t. tirar o capim, sachar, mondar

capulana n. f. Vest. pano usado principalmente como saia ou para levar os bebés às costas
O termo capulana aparece registado como moçambicanismo no dicionário Porto Editora e no Priberam online. Este último define-o como sendo um “pano de que os indígenas de Moçambique se servem para cobrir o corpo desde a cintura até aos joelhos”. A definição não é correcta: a capulana, pelo menos actualmente, é usada em público apenas por mulheres (há homens que a usam, mas só em casa) e, quando usada como saia, cobre normalmente a perna abaixo do joelho. A definição do dicionário Porto Editora é melhor: “pano que se coloca à volta da cintura e chega abaixo dos joelhos”. É de notar, porém, que a capulana tem muitos outros usos. A origem proposta (do landim kap[u]lana, “id.”) concorda com a da página Capulana da Wikipedia em português, onde se diz que a palavra capulana é de origem tsonga (landim é uma palavra antiga para designar os povos do sul de Moçambique, tsuas, changanas e rongas, que se agrupam sob a designação de tsonga) e com a de Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende (ronga kapulana).

caracata n. f. massa de farinha de mandioca

caril n. m. Cul. comida que acompanha a massa, geralmente um molho; molho (de caril, mistura de temperos asiática”, de origem controversa)
O moçambicanismo está registado no dicionário Porto Editora, mas com uma definição incorrecta: “molho feito com leite de amendoim, castanha ou coco” (presume-se que castanha seja aqui castanha de caju...). Na realidade, caril tanto pode designar um molho de qualquer tipo, até uma simples tomatada, como apenas folhas cozidas em água – tudo o que acompanhe a massa.

carregar v. t. ou com dativo. levar (também pessoas) (“eu carrego-lhes para casa”)
Além dos sentidos habituais fora de Moçambique.

casquete n. f. Vest. boné de uniforme (do francês casquette, “boné”)
Deve tratar‑se não de uma importação recente, mas de um arcaísmo, digamos assim, já que a palavra francesa foi usada em português, tendo depois o seu sentido evoluído em português para o que se encontra nos dicionários, de “barrete sem pala”. Em Moçambique (e não sei se em mais algum lado) conserva o significado francês original, com a restrição de se aplicar apenas a bonés de uniforme.

castanha (de caju) n. f. Bot. semente do cajueiro, Anacardium occidentale, (castanha de) caju
A não existência de castanhas anula a possível confusão, sendo castanha a designação normal de “caju”.

castanha de Inhambane n. f. Bot. Telfairia pedata
Encontrei também online a designação aboboreira de Inhambane.

catanar v. t. (alguém catanar alguma coisa ou alguém) cortar com catana; agredir com catana

catchaço n. m. Cul. bebida destilada, aguardente, tontonto (de cachaça, adaptado à fonética das línguaa bantas?)

catorzinha n. f. (adj.?) rapariga muito jovem encarada como objecto sexual.
Se defino de uma maneira vaga a expressão é porque, de facto, ela tanto se pode usar para uma prostituta muito jovem, como para uma namorada muito jovem, como apenas para uma rapariga muito jovem que se acha sexualmente atraente. Uma expressão triste, que dá conta de um fenómeno muito mais triste do que ela...

cavalo n. m. camião cuja cabina é independente do(s) atrelado(s)

cereja silvestre n. m. Bot. Dovyalis hispidula e Dovyalis longispina [LP]

chambocar, chamboquear 1. v. t. (alguém chambocar alguém ou algum animal) bater com chamboco; açoitar; chicotear; vergastar 2. v. i. estudar muito, marrar (de chamboco)

chamboco n. m. instrumento para bater em pessoas, chicote, cavalo-marinho; vara; pau; (prov. do afrikaans sjambok, do urdu chabuk pelo malaio samboq ou chambok).

chamuar, xamuar n. amigo/a
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo e afirma que tem origem no sena xamwar, “id.”(contribuição de Alda Martins, Portugal).

chanfuta n. f. tipo de madeira rija, Afzelia quanzensis


chanfuta

changana adj. e n. grupo étnico de Gaza e Maputo; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

changane n. m?. Zool. espécie de pequena corça, Neotragus moschatus (do tsua changane ou do ronga e cópi xlhengane)[CVM]


changane

chango n. m. Zool. tipo de veado, Redunca arundinum (de várias línguas moçambicanas, changana xlhango e changu, ronga xlhango e hlangu, cópi xlhango, tsua chango) [CVM]


chango

chango-da-montanha n. m. Zool. Tipo de chango, Redunca fulvorufula (do ronga hlangu)

chapa (cem) n. m. ou f. transporte semi-colectivo, semi-formal; por extensão, qualquer automóvel que transporte pessoas a troco de algum dinheiro (de chapa, “preço único”, de cem meticais) fazer chapa: cobrar dinheiro pelas boleias que dá nas suas deslocações (“quando vai a Nampula comprar material, o Faustino faz sempre chapa”); usar um automóvel como chapa (“ele anda a fazer chapa com o carro da companhia”)

chegar v. i. ir (“já chegaram lá naquele restaurante novo?”)

cheua adj. e n. grupo étnico de Tete; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

chibalo n. m. Hist. trabalho forçado

chibante adj. e n. bonito, bem arranjado, estiloso; beleza, pessoa bonita
Segundo Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, o termo é de origem sena.

chicunda n. Hist. escravo soldado ao serviço de um prazeiro
Os chicundas acabaram por se tornar um grupo étnico à parte, com as sua própria língua, trajes e tradições, e especializaram-se, como homens livres, como carregadores e remadores nas viagens no Zambeze. A etnia não sobreviveu muito tempo ao desmantelamento do sistema de prazos, tendo acabado por desaparecer. Para informação detalhada sobre chicundas, ver Escravos, esclavagistas, guerreiros e caçadores. A saga dos chicundas do vale do Zambeze, de Isaacman, Allen e Barbara Isaacman (Maputo: Ed. Promédia, 2006, tradução de António C. Barradas de Slavery and beyond – The making of men and Chikunda ethnic identities in the unstable world of South-Central Africa 1750-1920)

chima n. f. Cul. papa de farinha e água, usada como acompanhamento, massa, sadza, úchua
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo e define chima como: “1. prato à base de farinha de mandioca e de cereais” e “2. alimentação fundamental dos macuas (do macua eshima, “id”)”. Há aqui várias incorrecções: A chima não é um prato, a não ser que se considere um prato batatas cozidas, por exemplo – é um acompanhamento de muitos pratos. A chima também não é de farinha de mandioca e cereais, mas sim de farinha de mandioca ou de farinha de milho ou de farinha de mapira (e, pelo menos na Zambézia, a massa de farinha de mandioca tem um nome especial, chama-se caracata). A segunda definição não é independente da primeira: a chima que é “a alimentação principal dos macuas” é o tal “prato à base de farinha”. Além disso, a chima não é mais alimento de base dos macuas do que de todo o resto da população da África subsaariana. Finalmente, é discutível que o termo chima seja de origem especificamente macua, já que palavras que lhe poderiam ter dado origem existem em várias línguas da região (Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, refere, além da língua macua, as línguas sena e nhúnguè). Pode bem ser, como matope, um termo que tem origem numa pluralidade de línguas aos mesmo tempo. O dicionário Priberam online também tem uma entrada chima com uma incorrecção: refere-a como angolanismo (que eu não digo que não seja, não sei…), sem a referir como moçambicanismo. Noto de passagem que o mesmo dicionário dá funge como sendo, ao mesmo tempo angolanismo e moçambicanismo e a palavra não se usa em Moçambique.

chipene, xipene n. m. Zool. espécie de corça, do género Raphicerus (campestris ou sharpei) (do tsua e do ndau xipene) [CVM]


chipene

chona adj. e n. grupo étnico do Zimbábuè; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua
A grafia corrente é shona; adopto chona apenas porque sh não existe na escrita portuguesa. Embora muitos linguistas e antropólogos considerem um grande grupo linguístico chona, de que as línguas faladas em Manica e Sofala seriam variantes dialectais, as pessoas locais tendem a distinguir chona (falado no Zimbábué) destas línguas.

chuabo adj. e n. grupo étnico da Zambézia; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua (de chuambo)

chuambo n. m. Hist. tipo de fortificação do séc. XVII, paliçada, mussito (séc. XVIII), aringa (séc. XVII) [HM]

chuanga n. m. Hist. intérprete, mediador [Não sei qual foi a fonte, esqueci-me, pelos vistos, de anotar].
Tanto o dicionário Porto Editora como o Priberam online registam o moçambicanismo, como três acepções diferentes: “1. medianeiro entre contendores; 2. intérprete; 3. escravo de enfiteuta”, sendo que enfiteuta se deve aqui, creio eu, entender como prazeiro. Em http://www.poshistoria.ufpr.br/documentos/2006/Joserobertobportella.pdf, José Roberto Portella descreve o chuanga como “representante do prazeiro junto ao fumo”. É provavelmente esta a definição que cobre as outras três…

chuínga n. f. pastilha elástica (do inglês chewing gum, “id.”, literalmente “goma de mascar”)

chunga moio n. m. mercado informal, na Beira, dumba nengue, nas outras zonas do país (expressão ndau, “aperte o coração”=seja valente)

cimento n. m. parte central de uma cidade, muitas vezes correspondente à cidade colonial, que tem só edifícios de tipo europeu, por oposição a caniço ou bairros (“ele agora está a morar no cimento”)

cinquentinha n. f. motorizada de 50 cm cúbicos

cocone n. m. Zool. boi-cavalo, Connochaetes taurinus [AM]


cocone

cocuana n. m. idoso
Segundo Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, a palavra kokuana é comum ao changana, ao ronga e ao tsua.

cofió [còfió] n. m. Vest. chapéu muçulmano (do árabe keffya, kufiyya, talvez do latim tardio cofia, cofea, “capacete”)
O dicionário Priberam online regista o moçambicanismo, que define como “barrete usado pelas tropas indígenas”. Está seguramente a referir-se ao chapéu dos sipaios do tempo colonial, mas a verdade é que o cofió não é só chapéu de sipaio. Muitos muçulmanos usam cofió.


homem com cofió

colateral n. m. garantia (para um empréstimo bancário) (do inglês collateral, “id.”)

cólmane n. m. caixa térmica, geleira (de Coleman ®)

colono n. m. Hist. camponês africano livre na área de um prazo, mussenze [HM]

concho n. m. pequena embarcação escavada canoa, piroga (de concho, “recipiente para líquidos escavado em madeira”?) [MC]
Tanto o dicionário Porto Editora como o dicionário Priberam online registam o moçambicanismo. O dicionário Porto Editora propõe a mesma etimologia que eu conjecturei…

concunhada, concunhado n. irmã(o) da cunhada ou do cunhado
Trata-se provavelmente não de um moçambicanismo, mas de um arcaísmo, conservado em Moçambique. Eu sei que primo vem de “primo (= primeiro) coirmão”, que vi muitas vezes em textos medievais, tendo o coirmão, que era a palavra que de facto significava primo, desaparecido. Nunca vi nem ouvi concunhada, concunhado, consogro ou consogra fora de Moçambique, mas o facto é que são formas registadas nos dicionários.

congolote n. m. Zool. animal com muitas pernas, da classe Diplopoda [MC]
Tanto o dicionário Porto Editora como o dicionário Priberam online registam o moçambicanismo, como o faz aliás a entrada Diplópode da Wikipedia em português. O dicionário Porto Editora propõe uma etimologia: o changana khoagoloti.

consogra n. f. mãe do genro ou da nora (ver comentário em concunhada, concunhado)

consogro n. m. pai do genro ou da nora (ver comentário em concunhada, concunhado)

conto n. m. mil meticais antigos = um metical novo (de conto [de reis], “mil escudos”)
De mil meticais da nova família, introduzidos em Janeiro de 2008, e que valem, cada um, 1000 meticais antigos, não se diz um conto, diz-se um milhão (de meticais antigos, claro está…).

contraparte adj. e n. Desenv. pessoa ou instituição a trabalhar directamente com o cooperante ou a organização de cooperação e ao mesmo nível (do inglês counterpart, “id.”)

cópi adj. e n. grupo étnico de Inhambane e Gaza; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

corta-mato n. m. caminho mais curto que o caminho principal, atalho

cotação n. f. previsão do custo de um trabalho, orçamento (aportuguesamento do inglês quotation, “orçamento (de um empreiteiro, por exemplo)”)

cóti adj. e n. membro de um grupo étnico da Zambézia; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

cucunha n. m.? massivo? coco muito pequenino

culimar v. t. trabalhar a terra, cultivar; cavar
Segundo Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, a palavra tem origem em palavras semelhantes em várias línguas da região, nomeadamente o chuabo kulima. Também só a ouvi na região de Quelimane. Segundo alguns, o nome da cidade Quelimane estaria relacionado com esta raiz banta, mas trata-se de uma asserção que nunca consegui confirmar.

curativo n. m. chamada de atenção, descompostura, descasca (“ele estava a abusar, tive de lhe dar um curativo”)

curva n. f. Hist. pagamento feito pelos portugueses ao Monomatapa (do chona (antigo?) kuruva, “id.?”) [HM]
O dicionário Priberam online regista a palavra nesta acepção, sem a considerar moçambicanismo e definindo-a como “tributo cafreal”.

cut [cát, cât] adj. Calão que está sob o efeito de estupefacientes ou de álcool, bêbedo, drogado (termo de calão britânico que significa “bêbedo”)
Contribuição de Miguel, Maputo.

D

defrentar v. t. enfrentar (alteração de enfrentar ou construído a partir da locução de frente ?)

deitar v. t. deitar fora (“isto é para deitar?”)

deolinda n. m. Bot. tipo de erva daninha, Echinocloa corona, capim arroz, capim arrozeiro, falso arroz [CVP]

depende forma do v. depender, como frase fixa como preferir, como quiser (“Posso pagar com cheque, ou tem de ser com dinheiro?” “Depende.”)

desconseguir v. (alguém desconseguir de fazer alguma coisa) não conseguir
Muitos moçambicanos acreditam que desconseguir é, como maningue, algo muito moçambicano. O dicionário Porto Editora, porém, regista desconseguir como termo comum a Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe. É verdade que, mesmo sem conhecer bem o falar de Angola, já vi desconseguir numa letra de uma canção angolana. O dicionário Priberam online, por seu turno, regista desconseguir como angolanismo apenas.

desenhar v. t. (único objecto directo é projecto ou equivalente) Desenv. conceber, esboçar, planear (um projecto) (do inglês design, “conceber, esboçar, planear”)

desenho n. m. Desenv. concepção, esboço (de um projecto) (do inglês design, “concepção, esboço”)

desmontar v. t. (só na passiva?) despromover

dever (dinheiro) v. t. pedir (dinheiro) emprestado (“patrão, eu queria dever dinheiro”)

diminuir v. t. tirar (“vamos diminuir aqui algumas árvores, mas não todas”); antónimo: aumentar = pôr

dindar v. i. Fam. não dar, não ser possível; não conseguir; ter azar
Pensei que o verbo fosse defectivo e se usasse apenas na expressão “dindou!”: “não dá!, paciência!”. Lopes, Sitoe e Nahmuende, porém, no seu glossário Moçambicanismos explicam que “em geral, o termo significa não encontrar ou não conseguir o que se pretende” e que é utilizado sobretudo por crianças e jovens. Dão o segunte exemplo: A: “O Arlindo está?” B: (a criança, depois de ter ido verificar) “Dindaste, o Arlindo já saiu.” Segundo estes autores, a palavra é um empréstimo do ronga kudinda.

djadja n. f. Calão cânhamo indiano, Cannabis sativa, marijuana, bangue, passa, suruma.
Contribuição de Miguel, Maputo. O termo está também registado em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende.

djampar, djambar v. i. sair de casa, ou de outro lugar, sem os pais, ou outros responsáveis, darem por isso; desenfiar-se (do inglês jump, ”saltar”)

djaua n. m. Calão gajo, tipo

djeze [djéze] adj. (n.?) Fam. bêbedo, gueze
Na Zambézia, ouvi muitas vezes djeze com este sentido. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nahmuende, dá uma definição completamente diferente da palavra: confusão.

djô interj.?, usada como vocativo Calão referência à pessoa com quem se fala, como pá (“não dá, djô”) (prov. do inglês Joe, nome próprio, diminutivo de Joseph)

djobar [djòbar] v. i. Fam. trabalhar (do inglês job, “emprego, trabalho”)

djóni, djone n. m. as minas da África do Sul (estar no/ir ao djóni) (de Johnny, no sentido de “o país do Johnny”)

dona n. f. não vocativo 1. Hist. senhora de um prazo [HM] 2. senhora (“falei com uma dona que estava aqui...”)

dough [dou] n. m.? Calão dinheiro, tacos, titchapau (palavra inglesa, com o significado original de “massa (de pão, por exemplo)”, mas usada também em calão com o sentido de “dinheiro”)
Contribuição de Miguel e Soraia, Maputo.

dumba (nengue) n. m. mercado informal, chunga moio (expressão ronga, “confia no pé”, isto é, “tens de fugir, se aparecer a polícia”)
Embora a expressão tenha origem em Maputo e na língua local desta cidade, ouve-se agora em todo o país. Na zona da Beira, usa-se mais a expressão local, chunga moio.

dzimar v. t. espetar, meter; rematar (uma bola para a baliza)
Contribuição de Vénus, de Maputo (?), que diz que “é uma palavra muito usada, pelo menos no Sul do país” e dá os seguintes exemplos do seu uso: “O jogador dzimou a bola para a baliza”; “dzima o pau na carne”.

E

ecoce n. m?. Zool. tipo de antílope, Sigmoceros lichtensteinii = Alcelaphus lichtensteinii, gondonga, nameriga, vaca-do-mato (do macua e yao ecoce) [CVM]
Ver foto em gondonga.

empoderamento n. m. Desenv. reforço do poder real (social, económico, político) de um grupo ou sector de população (de poder, segundo o modelo do inglês empowerment, “id.”)

emprestar v. t. pedir emprestado (“posso emprestar o guarda-chuva?”=“pode emprestar-me o guarda-chuva?”/“posso levar o guarda-chuva emprestado?”)
Além do sentido normal nas outras variantes do português. Contribuição de Carmo Soares, Maputo.

ensaca n. f. Hist. regimento de soldados chicundas [HM]
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo, definindo-o como 1. “bando, grupo” e 2. “grupo de combate”, e propondo uma origem sena, ntsaka, “grupo”. O Priberam online também regista ensaca como palavra moçambicana e propõe duas definições, ambas diferentes das propostas pela Porto Editora: 1. “certa área de terreno” e 2. “agrupamento ou companhia de cipaios” (ver sipaio).

erva azeda n. m. Bot. tipo de ervas da espécie Oxalis, amendoim do corvo, amendoim do trevo, azedinha, trevo falso [CVP]

erva feiticeira do milho n. f. Bot. tipo de ervas daninhas da espécie Striga, especialmente Striga asiatica [PD] [CVP]

erva fura pé n. f. Bot. tipo de erva, Tribulus terrestris [CVP]
A planta é conhecida no Brasil, por videira de punctura.

escáfia n. f. Tabu? utilizado na expressão para a escáfia 1. só para o sexo, sem sentimentos envolvidos 2. para estragar

escafiar v. t. 1. Tabu? (alguém escafiar alguém) ter relações sexuais com, foder 2. (alguém escafiar [normalmente] alguma coisa) Fam. estragar

escalar v. t. (com topónimo) chegar a; fazer escala em (“O Presidente escalou Chimoio)
Contribuição de Carmo Soares, Maputo.

escolinha n. f. Escola pré-primária, jardim infantil, creche.
Termo oficial.

esquilo papagaio n. m. Zool. animal do género Pteromys, esquilo com os membros anteriores e posteriores ligados por uma membrana que lhe permite planar de árvore para árvore, esquilo voador

estado n. m. estar de estado: estar grávida.
Contribuição de Miguel e Soraia, Maputo. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, regista também a expressão com este sentido.

estaleca n. f. força, energia; robustez, pujança física
Embora a palavra seja de uso relativamente corrente em Portugal (pelo menos, nos meios que eu frequentava), vi-a algumas vezes referida como moçambicanismo, e a explicação da sua origem que encontrei em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nahmuende, obra que considero fiável, convenceu-me de que se trata de facto de um moçambicanismo: segundo este estudo, a palavra vem provavelmente do afrikaans sterkte, “força”, através das línguas do Sul de Moçambique, em que passou a xitereka. Ainda segundo a mesma obra, há também quem sugira que a palavra deriva do inglês strike, “greve”, já que a palavra xitereka, além de “força”, significa também “greve”.

estilar v. i. mostrar-se, pavonear-se, gingar

estrela de picos n. f. Bot. Acanthospermum hispidum [DC] [CVP]
Encontrei as designações brasileiras de espinho de cigano e carrapicho de carneiro.

F

facholo n. m. enxada [MC]
O dicionário Priberam online regista este moçambicanismo. O dicionário Porto Editora tem uma entrada facholar, um moçambicanismo que significa “cavar fundo com a enxada”. Segundo este dicionário, a palavra vem do nhúnguè phakhula, que vem, por sua vez, do inglês fire-shovel, “pá do lume”.

facocero, facochero, facoquero n. m. Zool. espécie de suíno selvagem, Phacochoerus africanus.
A primeira forma é a que tenho ouvido mais. A segunda, que também já ouvi, é a que registam o dicionário Priberam online e o dicionário Porto Editora. A terceira, só a li em Mia Couto. O dicionário Porto Editora diz que o nome é comum a Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. O dicionário Priberam identifica o facochero com o javali, o que é incorrecto, já que são de género e espécie diferentes (o javali é Sus scrofa).


facocero

falso arroz n. m. Bot. tipo de erva daninha, Echinocloa corona, capim arroz, capim arrozeiro, deolinda [CVP]

famba interj. (imperativo de verbo defectivo?) vai‑te embora! ala, xô!, suca (de famba, “andar, ir”, comum a várias línguas da região)

faraçola n. f. Hist. medida de peso de cerca de 18 libras [HM]
O termo não é exclusivamente moçambicano, mas diz respeito a uma medida de peso usada, aparentemente, em todo o comércio do Índico. Na sua página Contribuição árabe na formação do português, José Pereira da Silva (UERJ) regista faraçala e faraçola, com a seguinte definição “medida de peso muito usada antigamente no comércio dos mares da Índia”. José Pereira da Silva dá como fonte o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado (mas sem referir um étimo específico).

farm, farme, farma n. f. quinta onde se faz agricultura comercial, por oposição a machamba (palavra inglesa, às vezes ligeiramente aportuguesada),
O dicionário Porto Editora regista este moçambicanismo.

farmeiro n. dono de uma farm, agricultor comercial, por oposição a camponês, do sector familiar.

feijão buer n. m. Bot. tipo de leguminosa, Cajanus cajan.
No Brasil, este “feijão” é conhecido sobretudo como guandu. Hesitei na transcrição. Às vezes, vê-se boer, mas boer pronuncia-se sempre [bô-er] e este feijão diz-se [buer], pelo que o nome não deve ter a ver com boer.


feijão buer

feijão cutelinho n. m. Bot. tipo de leguminosa, Lablab purpureus [PD]

feijão fresco n. m. Bot. feijão verde

feijão jogo n. m. Bot. tipo de leguminosa

feijão macaco, feijão mascate n. m. Bot. tipo de erva daninha, Mucuna pruriens [PD] [CVP] [LP]

feijão nhemba n. m. Bot. tipo de leguminosa, Vigna ungulata


feijão nhemba

feijão holoco, feijão soloco, feijão soroco n. m. Bot. tipo de leguminosa

ficar v. i. não passar (num exame ou teste); chumbar (“fiquei em três, tenho de fazer segunda chamada”); antónimo de sair = passar

flat [flete] n. f. apartamento (palavra inglesa)

florinha n. f. o naipe paus das cartas

folgado adj. (n.?) Fam. que está ou é relaxado, despreconceituoso, sem preocupações (também devido ao efeito de álcool ou drogas) (“ele estava bem folgado ontem”)

fotar v. t. ou com dativo fotografar (“estou a pedir me fotar”)
Contribuição de Carmo Soares, Maputo.

four-by-four [fòbaifó, fôbaifô] carro de tracção às quatro rodas (expressão inglesa)

frescar 1. v. imp. fazer fresco (“lá fora fresca mais”) (de fresco ou alteração de refrescar?) 2. v. i. apanhar fresco (“vou até lá fora frescar”) (como frescar 1.)

fumba n. ( f. ?) Hist. saco de dormir [HM]
O dicionário Priberam online regista o moçambicanismo fumba (nome feminino) com dois significados distintos: “designação vulgar da esteira” e “unidade de valor utilizada, no Norte de Moçambique, nas trocas comerciais”. A relação entre esteira e saco de dormir é fácil de estabelecer.

fumar v. t. Calão matar a tiro

fumo n. m. Hist. chefe africano [HM]
O dicionário Priberam online regista este moçambicanismo, definindo-o como “autoridade cafreal [sic] que desempenha as funções de juiz de paz”. Pergunto-me se não será o mesmo que canfumo, palavra que ouvi frequentemente.

G

ganho-ganho n. m. trabalho rural remunerado, pago ao dia ou à tarefa (por oposição aos sistemas de ajuda mútua) (Ver a minha nota Redobro, ao fundo da página)

geleira n. f. frigorífico
A palavra frigorífico usa-se para “arca frigorífica”. O que em Portugal se chama geleira chama-se em Moçambique cólmane.

ginga n. f. bicicleta

gingar v. i. mostrar-se, pavonear-se, estilar

gondonga n. f. Zool. tipo de antílope, Sigmoceros lichtensteinii = Alcelaphus lichtensteinii, ecoce, nameriga, vaca-do-mato (do tsua, ndau e sena gondonga) [CVM]

gondonga

grise n. m. massa consistente (do inglês grease, “id.; gordura”)
Só ouvi em Manica; não sei se se usa só aqui, devido à proximidade do Zimbábuè.

gueze adj. (n.?) Fam. bêbedo, djeze

H

I

expressão de assentimento, anáfora de validação, sim, pois (do afrikaans ja, “id.”?)

imbabala n. m. Zool. espécie de antílope, Tragelaphus scriptus

incomodado adj. doente
Contribuição de Soraia e Miguel, Maputo. Incomodado é de facto a maneira normal de dizer “doente”, que é palavra que se utiliza muito pouco: “O João telefonou a dizer que não pode vir, está incomodado”. Em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, a expressão está também registada e é descrita como eufemismo. Como notam, e muito bem, estes autores, incomodado está longe de referir apenas uma indisposição ligeira, podendo até referir uma doença grave.

incube n. m. Hist. aldeia [HM]

infelicidade n. m. morte (normalmente de pessoa próxima)
Contribuição de Miguel, Maputo. A maneira mais comum de referir a morte de alguém próximo é dizer que se teve uma infelicidade: “Tive de ir à Beira no fim-de-semana, tive uma infelicidade de um primo meu”. A expressão é referida por Lopes, Sitoe e Nhamuende no seu Moçambicanismos.


inhacuaua n. m. Hist.? emissário [GL]


inhacoso n. m. Zool. tipo de antílope, Kobus ellipsiprymnus, também chamado piva




inhacoso ou piva



inhala n. ( f.?) Zool. tipo de antílope, Tragelaphus angasii (prov. do suaíli nyala) [AM]
O dicionário Priberam online regista inhala como nome masculino e significando uma “espécie rara de antílope da África”.




inhala

J

jágara, jagra n. f. Zool. animal parecido com um lémure, da família Galagidae


jágara

jam [jâme ou djâme] n. (m. ?, f. ?) doce, compota (palavra inglesa)

jambalau, jambalão n. m. Bot. Syzygium cordatum Hochst [LP]
Não confundir com jambolão, Eugenia jambolana. Este jambalau ou jambalão é uma árvore que existe na África do Sul, Zimbábuè e Moçambique. Segundo Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, jambalau designa apenas o fruto e a árvore chama-se jamboleiro.


jambalau

L

ladrão n. m. Zool. vários peixes do género Lethrinus [CVM]
Já vi estes peixes referidos como pargos.


ladrão

laminar v. i. (e t.?) falar incorrectamente, dar pontapés na gramática, dar calinadas

languçar v. t. espreitar; ver, observar

lanho n. m. coco jovem, ainda cheio de água e com a parte fibrosa ainda mole, que não se pode usar para cozinhar, mas de que se bebe a água
A palavra aparece no dicionário Priberam online com o significado de “iguaria feita de polpa de coco verde, vinho, noz moscada, sumo de limão e açúcar”. No dicionário Porto Editora, regista-se a palavra lanha, feminina, com o mesmo sentido, como sendo uma palavra do português da Índia, com origem no tamil ilanir, “líquido de coco tenro”. É muito natural que seja esta palavra a ter dado origem ao lanho moçambicano.

leão da Rodésia/do Zimbábuè n. m. Zool. raça de cão, originária do Zimbábuè, chamada, em inglês, ridgeback
A designação leão deve-se provavelmente a serem cães originalmente destinados à caça de leões – é o único cão, diz-se, que não tem medo de leões. Sobre a ortografia de Zimbábuè, ver lómuè.


leão do Zimbábuè

levar v. t. trazer, ir buscar (“Não tem cinzeiro? Um momento, eu vou levar”)
Além do seu sentido normal, claro está. O verbo parece ter perdido a característica deíctica, pelo que significa apenas “transportar”.

lobolar v. t. (i. ?) pagar lobolo

lobolo n. m. preço a pagar por uma esposa ao pai desta
Lobolo é um moçambicanismo com fortuna, registado tanto no dicionário Priberam online como no dicionário Porto Editora. Este último propõe o ronga lobolo como étimo. Palavras semelhantes, no entanto, existem em várias outras línguas da região (lobola em chona, por exemplo).

lolo n. m. Hist. dsignação que se encontra em obras antigas dos povos da baixa Zambézia, provavelmente lómuès

lómuè adj. e n. grupo étnico da Zambézia; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua
Sobre a ortografia de lómuè, parece‑me esta a mais lógica, de acordo aliás com a ortografia moçambicana de Vila Ulúnguè ou Alto Molócuè.

luane n. m. Hist. casa de campo de prazeiro [HM]

luar v. i. fazer/estar/haver luar (“hoje está a luar muito”)

lugar n. m. montinho de mercadoria (fruta, legume, etc.), usado como unidade de comércio nos mercados (“cada lugar de tomate está a 10 meticais”)

luzio n. m. Hist. barco de rio [HM]
O dicionário Porto Editora define luzio como “espécie de embarcação dos Cafres [sic]”.

M

mabulundlela n. m. Hist. tsonga ao serviço do rei de Gaza [HM]

maca n. f. problema, confusão, briga, disputa, milando, timaca
Tanto o dicionário Porto Editora como o dicionário Priberam online registam a palavra como angolanismo apenas e afirmam tratar-se de uma palavra quimbunda, que significa “palavra”. Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, grafam mhaka e timhaka, e não têm proposta etimológica. Ver milando para uma discussão mais aprofundada também da palavra maca.

macaiaia n.f. empregada que toma conta das crianças, ama

macangueiro n. m. feiticeiro, nhamussoro

maçanica n. f. fruto da maçaniqueira (de maçã)

maçaniqueira n. f. Bot. nome de várias árvores de frutos, nomeadamente do género Ziziphus e a Cupania racemosa Tadek (maçaniqueira de Tete) [LP] [CVP]

machamba n. f. terreno de cultivo, normalmente do sector familiar
O moçambicanismo é registado tanto no dicionário Porto Editora como no dicionário Priberam online, sendo que a definição do dicionário Porto Editora é mais precisa, especificando, como eu aqui faço, que se aplica o termo sobretudo a terrenos do sector familiar. O dicionário Porto Editora faz derivar o termo do changana maxamba, mas Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, que é uma fonte mais fiável, diz que se trata de um empréstimo do suaíli shamba, a que se acrescentou o prefixo ma-. De facto, eu sei que shamba é “terra”, em suaíli, e provavelmente também um terreno.

machambar v. i. fazer machamba [MC]

machila n. f. Hist. 1. palanquim, liteira [HM] 2. tecido africano de algodão, machira [HM]
Todos os dicionários consultados registam o termo, se bem que não como moçambicanismo. Segundo os dicionários Porto Editora, Priberam online e Michaelis online, o termo designa um objecto para transportar pessoas na África e na Índia. O dicionário Porto Editora propõe como étimo o tetense [sic] machira, «plural de chira, “lona”». Tetense refere provavelmente a língua nhúnguè, falada em Tete, o que significaria que a palavra é, pelo menos na origem, um moçambicanismo. Não sei se se pode falar de um plural de facto, mas provavelmente antes de uma forma plural como marca de nome massivo para a acepção de “tecido”, sendo que a outra acepção deriva desta.

machileiro n. m. Hist. carregador de machila [HM]

machimbombo, machibombo n. m. camioneta de carreira; autocarro
Tanto o dicionário Porto Editora como o dicionário Priberam online e o dicionário Michaelis online registam o termo, como moçambicanismo e angolanismo. O dicionário Porto Editora propõe que a palavra deriva do inglês machine pump, “bomba mecânica”, o que me parece estranho. Uma famosa etimologia popular, que também não me convence muito, é machine bumbum, sendo este bumbum uma onomatopeia imitativa do som de um motor… Em Moçambicanismos, Sitoe, Lopes e Nhamuende propõem, como provável, o étimo zulu ibhomba, “caminho; percurso” e que deu nomeadamente a palavra bombella para designar o autocarro. Estes autores também não consideram muito satisfatória a proposta de machine pump como origem de machimbombo.

machongo n. m. terra fértil de terrenos argilosos [MC]
O termo encontra-se registado como moçambicanismo tanto no dicionário Porto Editora como no dicionário Priberam online. O dicionário Porto Editora faz derivar a palavra do ronga maxungu, “pó de carvão vegetal”. Moçambicanismos, de Sitoe, Lopes e Nhamuende diz antes que o termo vem das línguas de Gaza e Inhambane, onde minchongo significa “riachos”.

maconde adj. e n. grupo étnico de Cabo Delgado e Niassa; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

macua adj. e n. grupo étnico de Nampula, Zambézia, Niassa e Cabo Delgado; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

macuaiela n. m. estilo musical do Sul de Moçambique, oriundo da África do Sul e praticado sobretudo por grupos de homens
A grafia aqui proposta é a adaptação à lógica ortográfica do português da grafia mais comum, makwayela. Sei que é também a grafia macuaiela que é proposta pelo dicionário Houaiss.

macubar n. m. folha de palma entrançada, para cobertura de casas, macute (na zona de Quelimane)

macute, macúti n. m. folha de palma entrançada, para cobertura de casas, macubar

macumbe n. m. revestimento exterior do coco, fibroso, muitas vezes usado como escova; cairo

madala n. m. homem de certa idade, referido com respeito
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo, definindo-o como “indivíduo com mais de quarenta anos” e propondo como étimo o changana madala. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, define, como eu, a palavra de maneira mais vaga e introduzindo a noção de respeito (madala não é sinónimo de, por exemplo, velhote). Segundo estes autores, o termo é tomado às línguas tsonga e tem a sua origem última nas línguas nguni, em que dala significa “idoso”.

madgermane, madgermano n. (ex-)emigrante na RDA (do tsonga majarimani, “alemão”, do inglês German)

madjonidjóni, madjonedjone n. m. emigrante nas minas da África do Sul (do changana, de John + o prefixo ma-)

madrassa n. f. escola muçulmana (do sânscrito? madrissah, “escola”)

mãe n. f. (sobretudo como vocativo) senhora, como tratamento de respeito
Contribuição de Miguel, Maputo.

mafileiro n. m. Bot. Vangueria randii S. Moore [LP]

mafurra n. f. fruto da mafurreira, de sementes oleaginosas

mafurreira, mafureira n. f. Bot. tipo de árvore, Trichilia emetica [CVP]

magaíça, magaíza n. m. trabalhador das minas de ouro da África do Sul, madjonidjóni, madjonedjone
Em Moçambicanismos, Lopes, Sitoe e Nhamuende explicam que, no início, o termo designava apenas os ex-emigrados regressados a Moçambique, tendo-se depois alargado o seu sentido para passar a referir também os emigrados. Esta obra coincide com o dicionário Porto Editora, que regista o moçambicanismo, na sua proposta etimológica: uma forma banta ingilizi ou inglisi, “inglês”, com o prefixo ma-.

magaiva n. m. e adj. pessoa que, tendo falta de conhecimento especializado, inventa maneira de fazer funcionar alguma coisa; desenrascado; esperto; aldrabão (de McGiver, nome próprio, de uma personagem de uma série televisiva)

magajojo n. m. Zool. holotúria, pepino-do-mar

maguerre [magüerre] n. (adj.?) pessoa branca, mucunha, mulungo, muzungo, xicaca
Em http://lusofonia.com.sapo.pt/glossario_africano.htm, maguerre é definido como “saloio branco colonial”. Em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, é dada uma explicação mais detalhada sobre a palavra: diz que começa por ser usado pelos militares negros do exército português para designar os soldados brancos e que o uso se alarga, passando a designar, depreciativamente, os colonos. Segundo esta obra, o termo teria caído em desuso depois da independência, mas eu tenho conhecimento de utilização mais recente da palavra.

magumba n. f. Zool. tipo de peixe miúdo, Hilsa kelee [CVM]


magumba

mahala [mahala (o agá pronuncia-se)] adv. e adj.? de graça, gratuitamente; gratuito
O termo é muito comum e utiliza-se em publicidade. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, diz que a palavra vem da língua do Lesoto, tendo entrado no português através das línguas do Sul de Moçambique. Esta obra classifica mahala apenas como advérbio, mas dá um exemplo da utilização do termo (“Amigo, o chapa não é mahala”) em que este parece funcionar como adjectivo. Numa frase como “Habilita-te a ganhar bilhetes mahala (…)”, parece tratar-se de um adjectivo invariável, o que pode fazer com que seja confundido com um advérbio.

mainate, mainato n. m. empregado doméstico não cozinheiro, criado (ver também sabão‑mainate)
No dicionário Porto Editora, mainate/mainato são registados como moçambicanismos e definidos como “indivíduo que lava e engoma a roupa”. Os termos constam também do dicionário Priberam online com um significado geograficamente mais abrangente: “lavandeiro na Índia, China e Moçambique”. O uso da palavra na Índia está de acordo com a etimologia proposta pelo dicionário Porto Editora, o malaiala (língua do Sul da Índia) mannatan. Moçambicanismos, de Lopes, Situe e Nhamuende, confirma as definições de ambos os dicionário e a proposta etimológica (com uma pequena variação: mannatti).

majobo n. m. Hist. oficial do reino de Gaza [HM]

malambe n. m. Bot. fruto do embondeiro, Adansonia digitata.
Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, propõem uma forma alternativa, melamba, e dão a palavra como sendo de origem nhúnguè.

malta n. f. col. (seguido de nome de pessoa) grupo de amigos habituais de (“Passei pelo Piri-Piri, estava lá a malta Cilinha.”)
Colaboração de Miguel e Soraia, Maputo. Evidentemente, a palavra malta mantém aqui o seu significado habitual noutras variantes do português. O moçambicanismo é a construção, em que se omite “amiga de” ou “que costuma andar com”: a malta Miguel, a malta Soraia, etc.

malemo n. m. Hist. piloto de navio [HM]

mamana n. f. senhora; mãe
O termo encontra-se registado como moçambicanismo tanto no dicionário Porto Editora como no dicionário Priberam online. O dicionário Porto Editora propõe como étimo o ronga mamana. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende confirmam esta proposta, propondo o termo mamani, comum às línguas tsonga.

mambo n. m. chefe tradicional

mamparra n. e adj. (pessoa) incompetente, inexperiente, ignorante
Em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, refere-se uma provável origem malaia, baharu. O termo teria entrado nas línguas da África Austral através do fanagaló (pidgin das minas da África do Sul).

manamambo n. m. Hist. funcionário africano de um prazo, com funções de gestor [HM]

manilha n. f. Hist. anel ou pulseira de cobre [HM]

maningue adj. e adv. Fam. muito
Maningue é um dos moçambicanismos mais famosos, se não mesmo o mais famoso. O dicionário Porto Editora e o dicionário Priberam online registam ambos a palavra. A palavra maningue é comum a várias línguas locais, como assinalam Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, dando o exemplo de manyingui na línguas tsonga. Mas sei que a palavra é também usada em ndau, por exemplo. Segundo estes autores, as palavras de línguas bantas de que deriva o maningue do português moçambicano vêm, por sua vez, do inglês many, “muito”. Todos os dicionários consideram maningue um advérbio, e o dicionário Porto Editora considera também que a palavra pode ser um pronome. Presumo que esta classificação de “pronome” corresponda à minha ingénua classificação de “adjectivo”(igual, aliás, à que propõem Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos) em frases como “estava lá maningue malta” ou “estavam lá maningues pessoas”.

mantacassa n. f. neuropatia tropical, doença causada pela ingestão de certos tipos de mandioca [MC]

mapira n. f. Bot. cereal da família dos sorgos, como o Sorghum vulgare ou o Sorghum bicolor arundicaeum (mapira brava)
Segundo Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, o termo maphira é comum a várias línguas do país. O dicionário Porto Editora regista correctamente a palavra como moçambicanismo, mas o Priberam online restringe o seu uso à Zambézia, o que é incorrecto.


mapira

maquela n. f. Bot. variedade de mandioca [MC]

marrabenta n. f. tipo de dança e música do Sul de Moçambique, sobretudo da zona de Maputo
Tanto Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, como o dicionário Porto Editora confirmam a origem comummente apresentado para a palavra: o português rebenta, como grito de incitamento.

marreco n. m. Zool. tipo de peixe da costa oriental da África Austral, Chrysoblephus puniceus [CVM]


marreco

massa 1. n. f. Cul. papa de farinha e água, usada como acompanhamento, chima, sadza, úchua
Por se designar muitas vezes este acompanhamento como massa, especifica-se massa esparguete ou massa macarrão quando se fala do que se designa como massa noutras variantes do português.

massa 2. n. m. zimbabueano branco (do inglês master, “senhor; dono”)

massala n. f. Bot. fruto da massaleira

massaleira n. f. Bot. tipo de árvore, Strychnos spinosa


massaleira com massalas

mata-boi n. m. barra de protecção dianteira para automóveis, abaixo do pára-choques

matabichar v. i. tomar o pequeno-almoço

mata-bicho, matabicho n. m. 1. pequeno-almoço 2. gorjeta, saguate

matacanha, mataquenha n. m. Zool. insecto parasita que se aloja nos pés, Tunga penetrans.
A mesma palavra usa-se em Angola.


pé com matacanha

mata-peixe n. m. Bot. planta da família das leguminosas, Tephrosia vogelii

matacar, maticar v. t. cobrir de lama a estrutura de madeira de uma casa; rebocar a barro (matacar do macua matthaka, “lama”, maticar provavelmente de outra língua moçambicana)
Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, só dá a forma maticar, embora tenha uma entrada mataca, “terra vermelha e barrenta”. Ouvi também maticar no sentido de “tomar nota, pôr no rol; escrever, assentar”, mas só no Alto Molócuè, não sei se a expressão se usa de facto nesse sentido.

matapa n. f. Cul. espécie de esparregado de folhas de mandioca, com amendoim, e às vezes coco, camarão seco ou caju
Embora alguns puristas defendam que a verdadeira matapa é a de folhas de mandioca, usa-se muitas vezes a designação de matapa para outros tipos de esparregado ou preparados com folhas que não são realmente matapa. Lopes, Sitoe e Nhamuende referem, em Moçambicanismos, a matapa de folhas de aboboreira e de folhas de feijoeiro. O dicionário Porto Editora tem uma definição correcta do termo e dá-a como vindo do ronga mathapa. Já o dicionário Priberam online define matapa apenas como “prato típico do Sul de Moçambique”.

matchessa, matchesa n. f. palhota pequena no quintal de uma casa, geralmente com paredes abertas, de caniço ou outro material leve, para descansar, comer ou beber, perron (do chona)

matical n. m. Hist. medida de ouro equivalente a cerca de 155 onças ou 4, 34 kg (do árabe mithqal, “id.”) [HM]
É desta antiga medida de ouro que vem o nome da actual moeda de Moçambique, o metical.

matope n. m. lama; lodo (de matope, plural de ntope, “id.” (os massivos têm a forma do plural), comum a várias línguas da região)
A palavra lama é raríssima em Moçambique. Diz-se sempre matope. O dicionário Priberam online diz que matope é, em África, “lodo endurecido onde se desenvolvem os mangais”. O dicionário Porto Editora diz que matope é um “terreno negro e impróprio para agricultura”. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, dá, além do sentido de “lama”, o de “terra barrenta e, por vezes, avermelhada”. A verdade é que a palavra se utiliza quase sempre simplesmente no sentido de “lama”, sem mais: em qualquer lado, de qualquer cor lama.

mazione n. membro de uma das igrejas zionistas cristãs da África Austral (de ma + zione, de Zion, cidade do Estado de Illinois, EUA, onde foi fundada a Christian Catholic Apostolic Church, que deu origem às igrejas zionistas da África Austral (veja artigo da Encyclopædia Britannica sobre estas igrejas, em inglês)

metical n. m. unidade monetária de Moçambique (de matical)

mexe-mexe n. (m.?) infecção na vista, conjuntivite
Contribuição de Miguel, Maputo. O termo está registado em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, com o mesmo significado. Sobre o processo de formação, ver texto Redobro ao fundo do glossário.

mexoeira, às vezes também meixoeira n. f. Bot. designação de vários tipos de milho-miúdo ou milho painço, nomeadamente Pennisetum glaucum, Pennisetum typhoides (mexoeira-de-junco) e Eleusine coracana (mexoeira-de-dedo)
A palavra aparece registada no dicionário Porto Editora como “grande árvore africana”. Tratar-se-á de uma confusão? Ou haverá realmente uma árvore com o mesmo nome?


mexoeira

milando n. m. [HM] problema, confusão, briga, disputa, maca, timaca
Todos os dicionários consultados, excepto o Michaelis, registam o termo como moçambicanismo. Mallyn Newitt, em A history of Mozambique, diz que milando é um crime ou quebra da tradição implicando o pagamento de uma multa. Pensei que se tratasse de um significado histórico, já desaparecido, que tivesse dado origem ao significado que milando tem em português de Moçambique actualmente. Em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, há, porém, uma explicação de carácter antropológico que mostra que esse significado antigo ainda se mantém: “Nas línguas de origem [cópi, changana, ronga], o significado de problema [das palavras donde provém a palavra milando] está associado ao de tomada de decisão. Na essência, os termos bantu significam problema para o qual já existe uma tomada de decisão, sendo esta acompanhada de uma estimativa da reparação dos danos. No caso de ainda não se ter chegado a nenhuma decisão, este problema é referido em línguas bantu como timhaka [timaca]. Em suma, o problema começa por ser timhaka quando é apresentada a queixa em público (...), em seguida é discutido na banja, na qual se toma uma decisão, tornando-se assim a timhaka em milando”. Se houver alguma relação entre makha e timhaka, e, consequentemente, entre as palavras maca e timaca deste glossário, há que recusar a hipótese da origem angolana de maca.

missonco n. m. Hist. tributo, mussoco [HM]

moageira n. f. moagem (de cereais); máquina de moer cereais
Não se trata de um moçambicanismo em sentido estrito, já que o substantivo é usado pelo menos também em Angola e no Brasil (às vezes com um sentido mais abrangente), mas uma pesquisa rápida em Google indica claramente que é muio mais usado em Moçambique.

mocazambo n. m. Hist. chefe de um grupo de escravos [HM]

mola n. f. Calão dinheiro

moluene n. m. menino da rua (do ronga molwene, do português esmola)

mongo n. m. amêndoa do cajueiro [LP]

monhé, muenhé adj. e n. indiano (de várias línguas do Norte do país e suaíli, monye e mweneye, “senhor”)
Eis uma palavra de origem moçambicana que se instalou no português europeu. Tal como em Portugal, o termo tem muitas vezes uma conotação pejorativa, o que não deixa de ser curioso dada a sua origem num tratamento de respeito.

morro de muchém n. m. termiteira


morro de muchém

muana n. m. rapaz, mufana
O dicionário Porto Editora e o dicionário Priberam online registam o moçambicanismo, apresentando como origem o macua mwana. Em chona, rapaz também se diz mwana.

muave n. m. Hist. teste de inocência pela ingestão de veneno [HM]

mucapata n. f. Cul. prato zambeziano feito de feijão soloco pilado com arroz e leite de coco

muchém n. f. s., massivo térmites, Isoptera spp.
O dicionário Priberam online define o moçambicanismo muchém como “formiga branca; térmite; montículo feito pela térmite”. Há aqui uma incorrecção: muchém só designa o animal, a termiteira chama-se morro de muchém. O dicionário da Porto Editora considera muchém um africanismo, definindo-o da seguinte forma: “Nome que, na África, se dá à formiga-branca (salalé) e aos seus montículos”. Incorre, pois, no mesmo erro ‑ a não ser que, noutros países de língua portuguesa de África, a palavra designe também a termiteira.

mucunha n. (adj.?) pessoa branca, maguerre, mulungo, muzungo, xicaca (do macua mukunya, “patrão”)

muene n. m. 1. Hist. chefe eleito das comunidades islâmicas [HM] 2. chefe tradicional, acima de um samassua

mufana n. m. rapaz, muana
O dicionário Porto Editora regista o termo, apresentando como origem o ronfa mu-fana.

mujelejele n. (m. ?, f. ?) Bot. tipo de árvore [GL ]

mulala n. f. Bot. planta (Euclea Natalensis), cuja raiz é usada como dentífrico (de várias línguas da região)

mulungo n. (adj.?) pessoa branca, maguerre, mucunha, muzungo, xicaca (de várias línguas moçambicanas)

muquerista n. comerciante transfronteiriço informal, pessoa que pratica o muquero

muquero n. m. comércio transfronteiriço informal, no Sul do país, com a Suazilândia e com a África do Sul
Na sua obra Moçambicanismos, Lopes, Sitoe e Nhamuende propõem que a palavra, grafada mukhero por estes autores, derive, em última análise do inglês carry, “transportar”, e que tenha sido importada para o português e para as línguas do Sul do país do zulo e do siSwati. O muquero é considerado uma prática sobretudo, mas não exclusivamente, de mulheres.

mussambaz n. m. Hist. comerciante africano, ao serviço de um senhor ou não [HM]

mussenze n. m. Hist. camponês africano livre na área de um prazo, colono [HM]

mussiro n. m. 1. Bot. tipo de árvores, Olax dissitiflora 2. pasta cosmética feita a partir da planta do mesmo nome (do macua)

mussito n. m. Hist. tipo de fortificação do séc. XVIII, paliçada, chuambo (séc. XVII), aringa (séc. XIX) [HM]

mussoco n. m. Hist. tributo, missonco [HM]

muzungo n. 1. (adj.?) pessoa branca, maguerre, mucunha, mulungo, xicaca 2. Hist. senhor afro‑português [HM] (de várias línguas do Norte do país)

N

nada ? expressão de discordância, anáfora de invalidação, não (de nada (disso))

nambauane n. ? adj. ? campião, o maior, o melhor (do inglês number one, “número um”)

nameriga n. f. Zool. tipo de antílope, Sigmoceros lichtensteinii = Alcelaphus lichtensteinii, ecoce, gondonga, vaca-do-mato (do chuabo nhamurringa) [CVM]
Ver foto em gondonga.

nascer v. t. dar à luz, parir, ter (filhos)
A definição não é muito correcta, porque este nascer moçambicano não se usa exactamente nas mesmas situações em que se usa dar à luz ou parir. De facto, usa-se sobretudo nas mesmas situações em que se usa nascer em português europeu, mas com uma estrutura sintáctica diferente, que é importada das línguas bantas e que corresponde também directamente à de muitos verbos para referir o nascimento nas línguas germânicas (como bear, em inglês, por exemplo). Assim, em vez de se dizer “nasci em Catandica”, usa-se a forma passiva “fui nascido em Catandica”. Também se pode usar o verbo na activa: “a Eurice sempre nasceu meninas, agora quer uma rapaz”.

naxenim bravo n. m. Bot. tipo de erva, Eleusine indica, capim pé de galinha [CVP]

ndau adj. e n. grupo étnico de Sofala; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

negar v. t. recusar (“ofereceram‑me um emprego, mas eu neguei, era mal pago...”)
A palavra negar é compreendida como “dizer que não” e cobre assim a negação de duas instâncias modais diferentes, a de afirmação (para a qual é usada em português europeu) e de proposta (para a qual se usa recusar em português europeu).

nenecar [nènècar] v. t. (alguém nenecar alguém) trazer (um bebé) às costas (do português do Brasil nené?) [MC ]

nhacoda n. m. Hist. escravo encarregado de tomar conta das escravas [HM]

nhamussoro n. m. feiticeiro, ganga, macangueiro [MC]

nhanja adj. e n. membro de um grupo étnico do Niassa e de Tete; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua
Muitas vezes, encontra-se a grafia nyanja. Não sei como se escreve nhanja em nhanja, mas a grafia com ny para representar o som [nh] é tipicamente inglesa. Acho que em português se deveria escrever nhanja.

nhoca 1. n. f. Zool. cobra 2. adj. (de uma pessoa) mau (de nhoca 1.) (do tsonga nyoka, “id.”)

nhongo n. m. inveja (do changana?)

nhúnguè [nhúngüè] adj. e n. membro de um grupo étnico de Tete; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua
Sobre a grafia com nh, ver nhanja. Quanto à acentuação, ver lómuè.

nice, às vezes escrito naiss [naice] adj. Fam. bom; bonito; agradável; simpático (palavra inglesa)
Muitas vezes encontra‑se a grafia naiss, que, aparentemente, não se justifica, parecendo naice o aportuguesamento ortográfico mais lógico; o problema é que não há ee mudos na pronúncia da maior parte dos moçambicanos, correspondendo, assim, a grafia naice a uma pronúncia como [nai-sê] ou [nai-si] – é provavelmente por isso que se grafa às vezes sem e final.

ninja n. m. membro de uma quadrilha de assaltantes (de ninja, “guerreiro japonês (especialista de ninjutsu)”, do nome dado a si próprio pelos membros de um bando de Maputo)

nipa n. m. Cul. bebida alcoólica feita de cereais (do malaio nipah, nome de uma bebida alcoólica, do nome de um tipo de palmeira?)

O

ocanho n. f. Bot. fruto do canhoeiro, canho, canhoa (do ronga nkanye, nkanyu) [PM]
Ver canho para mais detalhes.

ocanhoeiro n. m. Bot. tipo de árvore, Sclerocarya caffra, canhoeiro (do ronga nkanye, nkanyu) [PM]
O dicionário Porto Editora regista, como moçambicanismo, a forma feminina, ocanheira.

oteca n. f. Cul. cerveja tradicional (do macua otheka), cabanga, pombe

outro adj. um (“encontrei ontem outra gaja amiga” por “encontrei ontem uma gaja minha amiga”, ou seja, sem que tenha havido antes no discurso referência a nenhuma gaja amiga)
Creio que esta construção é mais (se não exclusivamente) utilizada pelos moçambicanos de língua materna portuguesa.

P

pai n. m. (sobretudo como vocativo) senhor, como tratamento de respeito
Contribuição de Miguel, Maputo.

palapala, pala-pala n. (m.?, f.?) Zool. tipo de antílope, Hippotragus niger


pala-pala

palmeira do marfim n. f. Bot. Hyphaene crinita Gaerth [LP]

pangaio n. m. Hist. embarcação mais pequena que um zambuco, do mesmo tipo (do árabe? bangwa)
Pangaio parece ser a palavra portuguesa para designar a embarcação conhecida em várias línguas como dhow. Sendo uma embarcação típica de todo o Índico, é provável que o termo se possa considerar, na origem, mais do que simples moçambicanismo.


pangaio

panga-panga n. f. tipo de madeira dura, Millettia stuhlmannii


panga-panga

panja n. f. Hist. medida de capacidade entre 27 e 30 litros [HM]

papudo adj. (n.?) Fam. pessoa que fala muito, conta muitas histórias, exagerando um bocado e pondo algumas mentiras pelo meio, tanguista, endrominador, batepapista

pargo n. m. Zool. nome de vários peixes do género Lutjanus [CVM]
Não tem relação com o que se chama pargo em Portugal, Pagrus pagrus.

passa 1. n. f. (como massivo ou não: “ele fuma passa de vez em quando” ou “ele fuma uma passa de vez em quando) Calão cânhamo indiano, Cannabis sativa, marijuana, bangue, djadja, suruma 2. n. f. (contável) Calão cigarro de Cannabis sativa, charro, joint

passopa [passópa], bassopa interj.? ou v. defectivo no imperativo cuidado! (do afrikaans (neerlandês) pas op, “id.”)
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo passopa, para o qual propõe uma etimologia imediata macua, pasópe, mas parece-me mais provável que a palavra neerlandesa tenha entrado no português via não uma mas sim várias línguas bantas em que foi incorporada. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, refere a existência da palavra bassopa em cópi, changana, tsua e ronga.

pata de ganso n. f. Bot. Chenopodium album [CVP]

patamar n. m. Hist. agente comercial africano, na ilha de Moçambique e na parte continental adjacente a ela [HM]

patanícua 1. n. f. massivo? Cul. doce de amendoim e/ou coco e açúcar, em forma de losango 2. n. f. contável o naipe ouros das cartas (de patanícua 1.)

pau‑rosa n. m. Bot. Berchenia discolor Hems [LP]

peixe-pedra n. m. Zool. designação de vários peixes do género Pomadasys


peixe-pedra

pegar pé v. i. Hist.? pedir perdão, pedir desculpa [GL]

pega‑pega n. ? Bot. Bideus pilosa [CVP]

pende, peixe-pende n. m. Zool. peixe de água doce, tilápia, do género Oreochromis


peixe-pende

penembe n. m. Zool. tipo de lagarto, varano do Nilo [MC]

pera (abacate) n. f. Bot. (pera) abacate
A maior parte da população não consome nem conhece peras, então não há confusão.

perron n. f. palhota pequena no quintal de uma casa, geralmente com paredes abertas, de caniço ou outro material leve, para descansar, comer ou beber, matchessa, matchesa (palavra francesa)

pimenta n. f. massivo (“Não precisa de pimenta?”) pimento ou pimentão (Capsicum) doce verde e vermelho
Paralelamente a esta designação de pimenta, também se usa, para os mesmos frutos, a designação de pimentos. A palavra pimenta também designa, em Moçambique, a especiaria pimenta, Piper nigrum.

pita n. f. Fam. rapariga, miúda (de pita, “galinha”?)

piva n. m. Zool. tipo de antílope, Kobus ellipsiprymnus, também chamado inhacoso (imagem em inhacoso)

pombe n. m. cerveja tradicional, oteca, cabanga
Tanto o dicionário Porto Editora como o dicionário Priberam online registam este moçambicanismo.

portuguesa n. f. Vest. camisola de manga curta com dois botões e gola, pólo

postar v. t. pôr no correio (cartas) (do inglês post, “id.”)

prazeiro n. Hist. senhor de um prazo

prazo (da Coroa) n. m. Hist. concessão de terra pela Coroa portuguesa

presídio n. m. Hist. cidade ou vila fortificada; por extensão, cidade ou vila [HM]

profundar v. t. aprofundar
A palavra está atestada nos dicionários, mas nunca a ouvi em Portugal – deve tratar‑se de um arcaísmo. A questão aqui já não é saber se a origem é moçambicana, que não é, mas se só é usada actualmente em Moçambique. Também é possível que se trate apenas de um erro comum em Moçambique, o de não pronunciar aa átonos pretónicos em início de palavra: panhar em vez de apanhar, garrar em vez de agarrar, etc.

psipoco n. m. fantasma, xipoco [MC]

pulseira de menina n. m. Bot. tipo de ervas da espécie Digitaria, capim digitada [CVP]

Q

quebra‑pedras n. ? Bot. Chamaesyce mossambicensis [CVP]

querença n. f. vontade (“ele foi‑se embora por sua querença, ninguém o obrigou”)
A palavra está atestada nos dicionários, mas nunca a ouvi em Portugal - deve tratar‑se de um arcaísmo. A questão aqui já não é saber se a origem é moçambicana, que não é, mas se só é usada actualmente em Moçambique.

quiabo bravo n. m. Bot. Plantas da espécie Hibiscus [CVP]

quinhenta n. f. antiga moeda de cinquenta centavos (de quinhentos (réis)). No singular, item de polaridade negativa, que só se pode usar nas expressões não ter/valer/etc. uma quinhenta, “não ter/valer/etc. nada/um chavo/um tostão/um tuste/etc.”; trocar em quinhentas, “explicar melhor, mais em detalhe; trocar por miúdos”

quissapo n. m. Hist. saco [HM]

quite n. m. Hist. trono [HM]

quizumba (quisumba [GL]) n. f. Zool. hiena

R

ralo n. m. banco de madeira com uma espora de ferro na parte da frente, que se usa para ralar coco


ralo

ratazana n. f. roedor do mato do género Thryonomys, cuja carne é muito apreciada (duas espécies: Thryonomys gregorianus e Thryonomys swinderianus)


ratazana

refresco n. m. bebida gasosa, refrigerante

regulado n. m. território de um régulo

régulo n. m. chefe tradicional (do latim regulum, “pequeno rei”)
Régulo e regulado não são verdadeiros moçambicanismos, mas são palavra tão comuns em Moçambique e conceitos tão importantes neste país que achei que ficavam bem aqui.

reparar v. t. olhar (“reparar para o chão, deve estar aí nalgum lado”)
No exemplo que dou, o infinitivo não é gralha – é comum usar o infinitivo como imperativo, em Moçambique.

ronga adj. e n. grupo étnico da zona de Maputo; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

rufe adj. Calão de mau gosto, de má qualidade, reles, desprezível, rafeiro, foleiro (do inglês rough, “rude, tosco, bruto”?)

S

sabão n. m. 1. detergente 2. sabonete
Além do sentido que tem no português europeu.

sabão-mainate, sabão‑mainato n. m. sabão em barra, por oposição a sabão no sentido de detergente ou de sabonete (de sabão de mainate, para a etimologia ver mainate)

sachicunda n. m. Hist. capitão de um regimento de chicundas [HM]

sacudu n. m. mochila (do francês sac-à-dos, “id.”)

sadza n. f. Cul. papa de farinha e água, usada como acompanhamento, chima, massa, úchua

saguate n. m. 1. Hist. presente de cortesia ou para comprar favores [HM] 2. gorgeta, mata‑bicho 3. quantidade dada a mais numa compra; bacela

sair v. i. ser aprovado, passar (num exame) (“saiu na escrita, só falta a oral”): antónimo de ficar = chumbar

samassua n. m. chefe tradicional, abaixo de um muene

satanhoco n. (adj. ?) patife, malvado, desgraçado [MC]
Lopes, Sitoe e Nhamuende, no seu Moçambicanismos, explicam que o termo pode ter um uso suave, como quando se chama malandreco a uma criança. Segundo esta obra, a palavra vem do tsonga musathanyoko, de sathani , “Satanás” + wa,“de” + nyoka,“cobra” (ver nhoca).

saúde n. m. usado como interjeição santinho! (quando alguém espirra)

segura n. f. pega, asa (de um saco, etc.)

sena adj. e n. grupo étnico da Zambézia, Manica, Sofala e Tete; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

senga adj. e n. membro de um grupo étnico de Tete; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

siclistar v. i. e t. Calão espreitar, espiar
Nunca vi a palavra escrita; pronuncia‑se [siklištar], mas como é que isto se escreve: ciclistar ciquelistar, siquelistar? Só uma hipótese sobre a etimologia poderia ajudar a uma proposta ortográfica mais consistente, que esta é muito vaga...

sipaio (às vezes também cipaio, grafia não justificada etimologicamente) n. m. Hist. soldado de uma força policial portuguesa do tempo colonial constituída por africanos, (do inglês sipoy, “soldado nativo indiano ao serviço de exército britânico” do urdu e persa sipahi, “soldado”, de sipah, “exército”)

sócio n. m., também vocativo Fam. pessoa com quem se tem uma relação muito próxima, amigo; namorado

sofrer v. i. estragar‑se; avariar‑se (“a geleira sofreu”)
Provavelmente, sofrer é compreendido como “não estar em boas condições”, donde a generalização.

solar v. imp. fazer sol (“hoje está a solar”)

sonecar v. i. dormitar, cochilar

sorry v. defectivo, só com a forma da 2ª pessoa do imperativo (“sorry lá isso!”) desculpar (palavra inglesa significando “triste, pesaroso, magoado, desconsolado”, usada como verbo por analogia com desculpe/a)

straight [streite] adj. e n. Fam. pessoa antiquada, conservadora; antiquado, bota‑de‑elástico, conservador, reaccionário (palavra inglesa, com o significado original de “recto, direito”)
É comum o aumentativo straightão.

suca interj. (Imperativo de verbo defectivo?) vai‑te embora, bicho!; expressão para enxotar animais, xô!, famba
Evidentemente, a expressão é ofensiva quando usada para pessoas, o que acontece... Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, dá como etimologia o tsonga suka, do nguni soega.

sura n. f. bebida alcoólica de palma
A etimologia apresentada em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, é o concanim sur, do sânscrito sura. Só vi e bebi sura fresca, que é um líquido tirado do coqueiro, mas estes autores explicam que também existe como aguardente.

suruma, soruma n. f. Bot. cânhamo indiano, Cannabis sativa, bangue, djadja, passa
A origem provável da palavra, segundo Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, é o maconde chirima

surumático n. e adj. pessoa que fuma suruma; drogado (de/com suruma)

T

taco n. m. perna de galinha ou frango

tacos n. m. p., geralmente com o artigo definido (“... e o gajo lá ficou com os tacos”) Fam. dinheiro, dough, titchapau
Taco também se usa em Portugal com o sentido de dinheiro. O que é especial em Moçambique é o uso plural.

tanga n. f. Hist. oitavo de um matical [HM]

tatá, tàtá, tá‑tá? [tá‑tá] interj.? saudação de despedida, adeus (expressão inglesa)

taxeiro [tàcseiro] n. m. motorista de táxi, taxista
Trata-se de uma palavra usada em documentos e nomes oficiais, por exemplo, Associação de Transporte Colectivo de Passageiros, Taxeiros e Carrinhas da Beira.

tchilar v. i. divertir-se, curtir; v. t. desfrutar, gozar, curtir (prov. do inglês chill, com o mesmo uso intransitivo em calão)

tchova (xitaduma), txova (xitaduma) n. m. carrinho de mão de aluguer (expressão changana, ”empurra que há-de pegar”, irónico)


tchova xitaduma

tchovar, txovar v. t. empurrar (do changana tchova, “id.”)
Em Moçambicanismos, Lopes, Sitoe e Nhamuende propõem o inglês shove como étimo da palavra changana.

tchunar, txunar v. i. vestir-se bem, arranjar-se; maquilhar-se v. t. lavar ou limpar bem, pôr a brilhar (um carro, por exemplo)
Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nahmuende, regista este moçambicanismo, dando como origem imediata do termo o changana kutichuna, por sua vez possivelmente derivado do inglês shine.

timaca n. f. problema, confusão, briga, disputa, milando, maca [MC] (Ver milando para mais informação sobre a palavra)

timbila n. f. marimba (do ronga ou changana?, plural de mbila, “id.”, tjmbila)

timbilar v. i. tocar timbila [MC]

timbileiro n. m. tocador de timbila


timbileiros

time [taime] n. m. Fam. tempo, altura (“naquele time eu morava em Marromeu”) (palavra inglesa)

tíner n. m. diluente (do inglês thinner, “id.”)
Parece ser a palavra oficial. Vê-se, por exemplo, nas listas de material proibido de levar na bagagem, nos aeroportos. Uma pesquisa simples na Internet mostra que a palavra também se usa no português do Brasil. Não sei se terá sido importada do português brasileiro, ou se terá começado a ser utilizada aqui por influência do inglês circundante, sem influência directa do uso brasileiro.

tia n. f. (como vocativo) senhora, como tratamento de respeito, sobretudo de uma criança a uma adulta
Contribuição de Miguel, Maputo.

tio n. m. (como vocativo) senhor, como tratamento de respeito, sobretudo de uma criança a um adulto
Contribuição de Miguel, Maputo.

titchapau n. m. Calão dinheiro, dough, tacos
Contribuição de Miguel e Soraia, Maputo.

tomatinho preto n. m. Bot. Solanum nigrum [CVP]

tonga adj. e n. grupo étnico de Inhambane; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua, bitonga

tontonto n. m. Cul. bebida destilada, aguardente, catchaço
Há quem afirme que a palavra tem uma origem onomatopaica, do som de engolir um líquido. Moçambicanismos de Lopes, Sitoe e Nhamuende, embora concordando com a origem onomatopaica da palavra, dá uma explicação ligeiramente diferente: diz que se trata do “som da gota a cair do alambique”.

tossecar [tòssecar] v. t. e i. Calão beber

trás n. m. espaço atrás (“está aí à tua trás”) (de trás, preposição, substantivado por analogia com frente)
É de notar que não se trata apenas de um barbarismo. Os falantes nativos do português usam as expressões “à minha trás”, “à sua trás”, etc., e surpreendem-se quando lhes dizemos que é estranha para quem não esteja habituado ao português de Moçambique.

trevo falso n. m. Bot. tipo de ervas da espécie Oxalis, amendoim do corvo, amendoim do trevo, azedinha, erva azeda [CVP]

tsonga adj. e n. membro de um grupo étnico que inclui changanas, rongas e tsuas; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

tsua adj. e n. membro de um grupo étnico de Inhambane; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

tsunga n. f. tipo de legume, folha de nabo, nabiça, Brassica rapa
Só ouvi o termo em Chimoio, mas encontrei-o também num estudo sobre o distrito da Gorongosa. Não sei se será apenas um termo das línguas da família chona ou se se usa também noutras partes do país.

U

úchua n. f. Cul. papa de farinha e água, usada como acompanhamento chima, massa, sadza (do changana)

ultimar v. i. chegar ao fim, acabar
Se ponho aqui a palavra, que todos os falantes de outros portugueses conhecem, é porque o uso de ultimar é especial em Moçambique. Por exemplo: “Então, como já vai o trabalho?” “Iá, mas já estamos quase a ultimar, havemos de ultimar amanhã.” Não me parece que tenha ouvido a palavra usada assim fora de Moçambique, mas pode ser que me engane...

upa n. f. acção de transportar uma criança, ao colo ou às cavalitas (“a menina quer upa”)
Este uso de upa decorre naturalmente do seu uso no português europeu, mas nunca ouvi a expressão usada desta maneira a não ser em Moçambique.

V

vaca-do-mato n. f. Zool. tipo de antílope, Sigmoceros lichtensteinii = Alcelaphus lichtensteinii, ecoce, gondonga, nameriga [CVM]
Ver foto em gondonga.

ventar v. imp. fazer vento

vicks n., normalmente atributivo (“um rebuçado vicks, cigarros vicks”) mentol (de Vicks ®)

vizinho n. m. porco

X

xicaca (chicaca?) n. (adj. ?) pessoa branca, maguerre, mucunha, mulungo, muzungo

xicuembo n. m. feitiço [MC]

xicunlunguelar v. i. ulular de alegria (as mulheres) [MC]

xipalapala n. f. corneta de chifre de boi [MC]

xipanelana n. m. pequeno restaurante informal ou banca de vender comida (do changana xipanelana, “panelinha” do português panela)

xipefo n. m. candeeiro a petróleo

xipoco n. m. fantasma, psipoco [MC] )

xirico n. m. 1. tipo de rádio pequeno a pilhas (®) 2. tipo de ave, Serinus mozambicus, também conhecido como canário de Moçambique
Embora tratando-se do nome de uma marca, o seu carácter mítico, digamos assim, leva-me a incluir aqui a palavra. Na entrada xirico da Wikipédia, refere-se um segundo sentido da palavra, embora eu nunca a tenha ouvido utilizada nessa acepção: pessoa que fala demais”. A mesma entrada da Wikipédia informa que o dicionário Houaiss indica que xirico é, em Angola, a designação vulgar de qualquer aparelho de rádio. Obrigado a Wenke Adam pela sugestão de correcção a esta entrada.

xitimela n. m. comboio (do tsonga xitimela, “id.”, do inglês steam, “vapor”)

Y

yao adj. e n. membro de um grupo étnico do Niassa; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua, ajaua

Z

zambuco n. m. Hist. embarcação maior que um pangaio, do mesmo tipo [HM]

zunar (zonar?) v., provavelmente defectivo, usando‑se apenas o Infinitivo, normalmente em construções perifrásticas (estar, ir, andar + a zonar) Calão andar (de carro) com muita velocidade, acelerar, abrir (de origem onomatopaica?)

Instabilidade no uso dos pronomes objecto

O português de Moçambique está a atravessar uma fase de grande instabilidade no que diz respeito ao uso dos pronomes objecto.

Quanto à colocação do pronome na frase, observa-se às vezes uma tendência para a anteposição do pronome relativamente ao verbo, como no português do Brasil (“Eh, pá, você me está a insultar, ou quê?”) e às vezes uma tendência para a posposição do pronome em situações em que tal não aconteceria nem no português europeu nem no português brasileiro (“Como ela chama-se?”).

Além disso, há grande instabilidade na escolha das formas de acusativo e dativo. Por influência da estrutura das línguas bantas, a tendência é cada vez mais usar sempre lhe(s) quando o pronome refere pessoas, independentemente de se usar com um verbo transitivo directo ou não: “A Ermelinda já chegou da Beira; encontrei-lhe ontem à noite na rua”.

Construção com nem em início de frase

Ao contrário do que acontece noutras variantes do português, nas frase iniciadas com nem, com o sentido de “nem sequer”, coloca-se um não antes do verbo: “estava teso, nem dinheiro para beber uma cerveja não tinha”. A construção também é usada pelos moçambicanos que têm o português como língua materna.

Redobro no português de Moçambique

Chamo redobro à duplicação consecutiva de uma unidade lexical.

Em português, usa-se o redobro de nomes e adjectivos (“ele é doido doido” ou “isto é que é medronho medronho”), de quantificadores, em frases negativas (“não gosto muito muito”, “não é assim tanto tanto…”) ou de formas verbais, para formar nomes (chupa-chupa).

Em Moçambique, há algumas destas formas com redobro de forma verbal para formar nomes que não são utilizadas no português europeu. Dois exemplos de que me lembro são ganho-ganho, que significa trabalho remunerado monetariamente, por oposição aos sistemas de ajuda mútua, e mata-mata, para referir o jogo infantil que em Portugal se chama apenas mata.

Usa-se também muito o redobro do quantificador pouco para formar um adverbial pouco-pouco, que significa “pouco a pouco”, “devagarinho” (“Como vão as obras lá de casa?” “Iá, mas estamos a fazer pouco-pouco”), mas é provável que não se trate de um verdadeiro redobro, mas antes do apagamento do a, que é comum em Moçambique: “Estou pedir” em vez de “estou a pedir”, “garrar” ou “cabar” em vez de agarrar ou acabar, etc.

Finalmente, outro uso muito moçambicano do redobro é o que se faz com numerais, quando se fala de preços, para significar “cada um”:
- A como está a folha de abóbora?
- Está (a) mil mil (=mil meticais [antigos] cada molho).
ou
- A como estão os cigarros? [em Moçambique, vendem-se na rua cigarros avulsos]
- Quinhentos quinhentos (=cinquenta centavos cada).

Pronúncia do português em Moçambique

Português língua materna

A pronúncia dos moçambicanos de língua materna portuguesa da 1ª geração (isto é, os que já tinham o português como língua materna na altura da independência) é muito parecida com a do português europeu, muitas vezes indistinguível. Dois traços que podem às vezes caracterizar o sotaque desses moçambicanos são a pronúncia “dura” de d e g entre vogais (ou seja, pronunciar da mesma forma os dois dd de dado ou os dois gg de gago) e pronunciar como um j o s entre vogais quando este liga duas palavras (ou seja, pronunciar “’tás a fazer” [tàjafazer] em vês de [tàzafazer]) [o que também pode acontecer, aliás, em algumas zonas de Portugal]. Os rr são sempre vibrantes alveolares e nunca guturais.

A mesma pronúncia muito próxima da pronúncia europeia mantém-se entre as elites de língua materna portuguesa das gerações seguintes (normalmente em pessoas com pais de língua materna portuguesa) e sobretudo em Maputo, que é onde há maior percentagem de falantes de português como língua materna ou de nível elevado como língua segunda.

Há muitos casos, porém, em que os moçambicanos que agora têm o português como língua materna não têm pais de língua materna portuguesa, mas antes que utilizam o português como língua de comunicação entre eles (por exemplo, pai chuabo, mãe maconde) e que, muitas vezes, vivem num meio onde o português é falado como língua de comunicação. Nestes casos, há fortes influências da pronúncia da língua da zona onde a pessoa vive e a sua pronúncia é muito parecida com a das pessoas da zona que falam o português como língua segunda ou estrangeira.

Português língua segunda ou estrangeira

É muito difícil fazer uma descrição unificada da pronúncia do português como segunda língua ou língua estrangeira, porque essa pronúncia difere, naturalmente, de região para região, em função da língua materna das pessoas. Há, porém, alguns traços comuns a muitas línguas bantas (alguns a todas), que posso aqui apontar:

• Ausência de encontros consonânticos típicos da pronúncia europeia ou impossibilidade de ocorrência no fim da palavra de determinadas consoantes. Neste sentido, muitos moçambicanos falam “como” os brasileiros ou os espanhóis – para dizer stress, pneu ou afta, por exemplo, introduzem uma vogal entre as consoantes: e também pode acontecer introduzirem um som vocálico, por exemplo, entre o s e o n da sequência mas nada...

A e e abertos: em geral, não há, nas línguas bantas, vogais fechadas e muito menos ee mudos, o que faz com que o [â] se pronuncie [á] e o e átono se pronuncie [i] ou [ê].

• Troca de [l] por [r], e das consoantes surdas [p], [t] e [k] pelas sonoras correspondentes [b], [d] e [g] e vice-versa. Em muitas línguas, as versões surdas e sonoras das oclusivas não são entendidas como sons diferentes, mas como variantes do mesmo som, consoante os sons que têm antes ou depois. Um exemplo extremo deste fenómeno é pronunciar [progo] a palavra bloco, como eu uma vez ouvi.

• Em várias regiões, pronúncias explosivas do t, e com a língua mais acima, como em inglês.

• Ausência de distinção entre o r simples e o r múltiplo, isto é, entre caro e carro.

• Erros de hipercorrecção: como têm consciência de que uma pronúncia “correcta” deve ter ee mudos, alguns moçambicanos fecham ee que nós abrimos em português europeu e que constituem excepção à regra de fechar todos os ee átonos. Assim, vamos ouvir pessoas que, por hipercorrecção, pronunciam esquecer [shkcer] em vez de [shkècer], por exemplo.

Deixo-vos também um link para um texto meu no meu blogue Travessa do Fala Só em que discuto uma questão de pronúncia do português em Moçambique.

Particularidades da voz passiva

Por influência da estrutura das línguas bantas, fazem-se, com muita frequência, frases passivas cujo sujeito é o objecto indirecto das frases activas que lhes correspondem. Diz-se, por exemplo, que “aquela associação de camponeses agora foi dada insumos por uma ONG suíça” ou que “nós fomos pedidos estar lá às 15 horas”.

Trata-se de uma tendência muito forte, que se começa a observar também nas novas gerações de moçambicanos de língua materna portuguesa. É provável, portanto, que se venha a afirmar como característica do português de Moçambique.