Este trabalho tem, provavelmente, muitas incorrecções. Colocam-se-me sobretudo três tipos de dúvidas:

• nalguns casos, é bem possível que eu tenha tomado por moçambicanismos expressões que são apenas criações individuais;

• outras vezes, posso ter considerado moçambicanismo uma expressão local, compreendida apenas pelos falantes da língua da região;

• posso ainda ter considerado moçambicanismo alguma expressão de variantes do português que não conheço bem, sobretudo brasileirismos (ver caixa sobre esta questão ao fundo da página);

• finalmente, no caso de nomes de animais e plantas, é-me muito difícil saber quando é que os nomes que encontrei nas minhas pesquisas são realmente moçambicanismos ou são usados também noutras regiões de língua portuguesa – castanha de Inhambane ou maçaniqueira de Tete são obviamente moçambicanismos, mas amendoim do corvo sê-lo-á também?


As vossas críticas e sugestões (incluindo correcções de gralhas e de defeitos de layout), deixem-nas, por favor, nos comentários ou escrevam para

lucaslindegaard@gmail.com

Como isto é um glossário e não um verdadeiro blogue, os comentários serão apagados ao fim de algum tempo, nas arrumações periódicas que faço. Prefiro que me escrevam para o e-mail acima ou que me deixem um contacto nos comentários, para poder haver diálogo sobre as vossas propostas.

Identifico sempre a pessoa que me sugeriu uma determinada entrada (com o nome e outros dados que constem do comentário ou do e-mail que escreve, a não ser, claro está, que me dê indicações em contrário).
_______________________________________________

Ao fundo da página, há algumas notas sobre o português de Moçambique:

Instabilidade no uso dos pronomes objecto

Construção com nem no início de frase

Redobro

Pronúncia do português em Moçambique

Particularidades da voz passiva

A questão dos brasileirismos

Só as minhas definições e propostas etimológicas é que são... minhas!...

Quero deixar claro que o facto de citar, nos comentários às entradas, definições ou propostas etimológicas de outros dicionários não significa que concorde com elas. Nalguns casos, discuto-as ou assinalo a minha estranheza com um [sic]; noutros casos, limito-me a apresentar a informação sem a comentar.
A ++B ++C ++D ++E ++F ++G ++H ++I ++J ++L ++M ++N ++O ++P ++Q ++R ++S ++T ++U ++V ++X ++Y ++Z

Atenção: Opto por uma grafia aportuguesada de todos os empréstimos, pelo que uso, por exemplo, ca, que, qui, co e cu, em palavras que muitas vezes se escrevem com ka, kha, ke, khe, ki, khi, ko, kho, ku e khu. Assim, escrevo cabanga e não kabanga, muquero e não mukhero. O leitor deve ter em conta esta opção ao procurar palavras no glossário. Há também muita instabilidade na transcrição do som [š], ora com ch ora com x, pelo que devem verificar ambas as grafias possíveis. Por exemplo, a palavra que às vezes se vê grafada chicuembo, chikuembo, etc., aparece aqui como xicuembo.

M

mabulundlela n. m. Hist. tsonga ao serviço do rei de Gaza [HM]

maca n. f. problema, confusão, briga, disputa, milando, timaca
Tanto o dicionário Porto Editora como o dicionário Priberam online registam a palavra como angolanismo apenas e afirmam tratar-se de uma palavra quimbunda, que significa “palavra”. Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, grafam mhaka e timhaka, e não têm proposta etimológica. Ver milando para uma discussão mais aprofundada também da palavra maca.

macaiaia n. f. empregada que toma conta das crianças, ama

macambúzio adj. triste, taciturno; mal-humorado
Pode parecer-vos estranho que apareça aqui como moçambicanismo uma palavra tão comum nas outras variantes do português, mas é realmente possível que a palavra seja de origem moçambicana. É essa a proposta de Nei Lopes, no seu Novo dicionário banto do Brasil (Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2003), que é suficientemente credível para ver aprovadas pelo Houaiss 250 das suas propostas. Segundo Nei Lopes, a palavra viria do nhúnguè makambuzi, “pastor de cabras”, porque “para o cafre da Zambézia, o símbolo da tristeza é o pastor no isolamento da campina distante, vigiando o rebanho”. Segundo este autor, o termo macambúzio teria, em Moçambique, outro significado, o de “jovem guardador de gado”. Os moçambicanos com quem eu falei acerca desta questão desconhecem este significado, mas é verdade que o termo makambuzi aparce registado no Minidicionário de Moçambicanismos, de Hildizina Dias, com o significado de “pastor de cabritos” (do chuabo, segundo esta obra). Nei Lopes relaciona o termo com os termos nhúnguè imbuzi, “bode”, mukumbuso, “memória, lembrança, recordação”, os termos nhanja m'busa, “pastor”, e kukumbutsa, “recordar”, e o suaíli kukumbuka, “recordar”. A hipótese aqui fica, para debate.

macangueiro n. m. feiticeiro, nhamussoro

maçanica n. f. fruto da maçaniqueira (de maçã)

maçaniqueira n. f. nome de várias árvores de frutos, nomeadamente do género Ziziphus e a Cupania racemosa Tadek (maçaniqueira de Tete) [LP] [CVP]

machamba n. f. terreno de cultivo, normalmente do sector familiar
O moçambicanismo é registado tanto no dicionário Porto Editora como no dicionário Priberam online, sendo que a definição do dicionário Porto Editora é mais precisa, especificando, como eu aqui faço, que se aplica o termo sobretudo a terrenos do sector familiar. O dicionário Porto Editora faz derivar o termo do changana maxamba, mas Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, que é uma fonte mais fiável, diz que se trata de um empréstimo do suaíli shamba, a que se acrescentou o prefixo ma-. De facto, eu sei que shamba é “terra”, em suaíli, e provavelmente também um terreno.

machambar v. i. fazer machamba [MC]

machila n. f. Hist. 1. palanquim, liteira [HM] 2. tecido africano de algodão, machira [HM]
Todos os dicionários consultados registam o termo, se bem que não como moçambicanismo. Segundo os dicionários Porto Editora, Priberam online e Michaelis online, o termo designa um objecto para transportar pessoas na África e na Índia. O dicionário Porto Editora propõe como étimo o tetense [sic] machira, «plural de chira, “lona”». Tetense refere provavelmente a língua nhúnguè, falada em Tete, o que significaria que a palavra é, pelo menos na origem, um moçambicanismo. Não sei se se pode falar de um plural de facto, mas provavelmente antes de uma forma plural como marca de nome massivo para a acepção de “tecido”, sendo que a outra acepção deriva desta. José Roberto Braga Portella (em Descripçoens, Memmórias, Noticias e Relaçoens, Administração e Ciência na construção de um padrão textual iluminista sobre Moçambique, na segunda metade do Século XVIII, Cutitiba: CEDOPE, 2006) regista ainda a forma manchila e maxira e não distingue as duas acepções, o que faz todo o sentido: eram panos grosseiros de algodão muito utilizados para vestuário e ainda como processo de transporte.

machileiro n. m. Hist. carregador de machila [HM]

machimba, matchimba n. f. fezes
Segundo o Minidicionário de Moçambicanismos de Hildizina Dias, a expressão tem origem no ronga matximba.

machimbombo, maximbombomachibombo n. m. autocarro
Tanto o dicionário Porto Editora como o dicionário Priberam online e o dicionário Michaelis online registam o termo, como moçambicanismo e angolanismo. A origem da palavra é discutida. Uma das propostas etimológicas é que a palavra, que, grafada maximbombo, designou no início do século XX um funicular mecânico em Lisboa, derive do inglês machine pump, “bomba mecânica”. Fernando Santos e Silva, de Lisboa, cuja contribuição muito agradeço, dá a seguinte explicação: «Tratando-se de um funicular com cabo enterrado ao qual o veículo se agarrava por uma garra mecânica, a tração era obtida pelo movimento do cabo e este era movido por roldanas acionadas por uma máquina de vapor alternativa. Não sendo uma bomba, esta máquina de vapor seria semelhante à que assegurava a pressão nas condutas da distribuição da água canalizada. É assim uma hipótese provável que os técnicos estrangeiros se lhe referissem também como machine pump (bomba mecânica) e daí a corruptela.» Alguns autores propõem para a palavra uma origem banta. Em Moçambicanismos, Sitoe, Lopes e Nhamuende, que não consideram muito satisfatória a proposta de machine pump como origem de machimbombo, dão como provável o étimo zulu ibhomba, “caminho; percurso” e que deu nomeadamente a palavra bombella para designar o autocarro.

machongo n. m. terra fértil de terrenos argilosos [MC]
O termo encontra-se registado como moçambicanismo tanto no dicionário Porto Editora como no dicionário Priberam online. O dicionário Porto Editora faz derivar a palavra do ronga maxungu, “pó de carvão vegetal”. Moçambicanismos, de Sitoe, Lopes e Nhamuende diz antes que o termo vem das línguas de Gaza e Inhambane, onde minchongo significa “riachos”.

machua n. f. (também m.?) pequena embarcação para levar as pessoas à praia a partir de uma embarcação maior; bote, batel, lancha 
O termo ocorre na História Trágico-Marítima com uma forma ligeiramente diferente, manchua. O vocábulo consta também do Glossário Luso-Asiático (Coimbra: Imprensa da Universidade, 1921) de Sebastião Rodolfo Dalgado (p.19: “Embarcação malabárica de um mastro e vela quadrada; galeota”), que apresenta inúmeras abonações, não só em português como também em italiano, francês e inglês. Dalgado acrescenta que “havia também manchua de luxo, como a do vice-rei e outros fidalgos” e explica que “os portugueses levaram o termo para outras partes da Ásia e aplicaram a barcos de outras descrições”. Pelos vistos, não só para outras partes da Ásia, mas também para África. Dalgado dá também conta da variação mochua (apud Júlio Biker, Collecção de tratados, IV, pág.188, 1616). Na mesma entrada, encontra-se a forma machwá, já sem o som nasal na primeira sílaba, em inglês, referindo-se a um barco de Bombaim (Hunter, The Imperial Gazetter, VIII, pág. 268 (1885)). O termo mashua está dicionarizado em inglês, com o significado de pequeno barco da África Oriental, e é também considerado uma palavra suaíli, com a mesma grafia. Segundo Dalgado, o vocábulo vem do tamul-malaiala mañji, que corresponde a machvā em marata e a matçvó em concani. Colaboração de António Teixeira da Fonseca.

maconde adj. e n. grupo étnico de Cabo Delgado e Niassa; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

macua adj. e n. grupo étnico de Nampula, Zambézia, Niassa e Cabo Delgado; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

macuaiela n. m. estilo musical do Sul de Moçambique, oriundo da África do Sul e praticado sobretudo por grupos de homens
A grafia aqui proposta é a adaptação à lógica ortográfica do português da grafia mais comum, makwayela. Sei que é também a grafia macuaiela que é proposta pelo dicionário Houaiss.

macubar n. m. folha de palma entrançada, para cobertura de casas, macute (na zona de Quelimane)

macute, macúti n. m. folha de palma entrançada, para cobertura de casas, macubar

macumbe n. m. revestimento exterior do coco, fibroso, muitas vezes usado como escova; cairo

madala n. m. homem de certa idade, referido com respeito
O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo, definindo-o como “indivíduo com mais de quarenta anos” e propondo como étimo o changana madala. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, define, como eu, a palavra de maneira mais vaga e introduzindo a noção de respeito (madala não é sinónimo de, por exemplo, velhote). Segundo estes autores, o termo é tomado às línguas tsonga e tem a sua origem última nas línguas nguni, em que dala significa “idoso”.

madgermane, madgermano n. (ex-)emigrante na RDA (do tsonga majarimani, “alemão”, do inglês German)

madjiba, majiba n. m. informante da Renamo, durante a guerra
Colaboração de Ricardo. Jan Rydzak propõe as variantes mujiba e majuba, que encontrou em diversos livros e artigos. 

madjonidjóni, madjonedjone n. m. emigrante nas minas da África do Sul (do changana, de John + o prefixo ma-)
Jan Rydzak aventa a possibilidade que o elemento djone se refira a Joanesburgo e não ao nome próprio John.

madoda n. m. ancião
Segundo Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, o termo derviva do xhosa mdoda, do zulu indoda, que significa “adulto”, “pessoa com a responsabilidade de tomar decisões”. Os mesmo autores dão outra definição do termo: “Forma de tratamento familiar (equiv. ao tratamento amigo)”.

madrassa n. f. escola muçulmana (do sânscrito? madrissah, “escola”)

madumbe n. m. inhame, taro, Colocasia esculenta (do zulu amadumbe, pela forma anglicizada madumbi ?)

mãe n. f. (sobretudo como vocativo) senhora, como tratamento de respeito
Contribuição de Miguel, Maputo.

mafileiro n. m. planta, Vangueria randii S. Moore [LP]

mafurra n. f. fruto da mafurreira, de sementes oleaginosas

mafurreira, mafureira n. f. tipo de árvore, Trichilia emetica

mafuta adj. e n. m. e f. gordo
Segundo Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, o termo é de origem nguni e significa, nas línguas do Sul de Moçambique, “gordura, óleo”. O dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo, propondo como étimo o ronga mafutha, “id”. Colaboração de Cecília Pedro, Beira.

magaíça, magaíza n. m. trabalhador das minas de ouro da África do Sul, madjonidjóni, madjonedjone
Em Moçambicanismos, Lopes, Sitoe e Nhamuende explicam que, no início, o termo designava apenas os ex-emigrados regressados a Moçambique, tendo-se depois alargado o seu sentido para passar a referir também os emigrados. Esta obra coincide com o dicionário Porto Editora, que regista o moçambicanismo, na sua proposta etimológica: uma forma banta ingilizi ou inglisi, “inglês”, com o prefixo ma-. 

magajojo n. m. holotúria, pepino-do-mar

maguerre [magüerre] n. (adj.?) pessoa branca, mucunha, mulungo, muzungo, xicaca
Em http://lusofonia.com.sapo.pt/glossario_africano.htm, maguerre é definido como “saloio branco colonial”. Em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, é dada uma explicação mais detalhada sobre a palavra: diz que começa por ser usado pelos militares negros do exército português para designar os soldados brancos e que o uso se alarga, passando a designar, depreciativamente, os colonos. Segundo esta obra, o termo teria caído em desuso depois da independência, mas eu tenho conhecimento de utilização mais recente da palavra.

magumba n. f. tipo de peixe miúdo, Hilsa kelee [CVM]


magumba

mahala [mahala (o agá pronuncia-se)] adv. e adj.? de graça, gratuitamente; gratuito
O termo é muito comum e utiliza-se em publicidade. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, diz que a palavra vem da língua do Lesoto, tendo entrado no português através das línguas do Sul de Moçambique. Esta obra classifica mahala apenas como advérbio, mas dá um exemplo da utilização do termo (“Amigo, o chapa não é mahala”) em que este parece funcionar como adjectivo. Numa frase como “Habilita-te a ganhar bilhetes mahala (…)”, parece tratar-se de um adjectivo invariável, o que pode fazer com que seja confundido com um advérbio.

maheu [o agá pronuncia-se] n. m. massivo bebida feita de farinha de milho e açúcar
Segundo Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, o termo tem origem no zulu amahewu.

mainate, mainato n. m. empregado doméstico que se encarrega do tratamento das roupas (ver também sabão‑mainate)
No dicionário Porto Editora, mainate/mainato são registados como moçambicanismos e definidos como “indivíduo que lava e engoma a roupa”. Os termos constam também do dicionário Priberam online com um significado geograficamente mais abrangente: “lavandeiro na Índia, China e Moçambique”. O uso da palavra na Índia está de acordo com a etimologia proposta pelo dicionário Porto Editora, o malaiala (língua do Sul da Índia) mannatan. Moçambicanismos, de Lopes, Situe e Nhamuende, confirma as definições de ambos os dicionários e a proposta etimológica (com uma pequena variação: mannatti). Agradeço a Eduarda Nunes a correcção a esta entrada.

majobo n. m. Hist. oficial do reino de Gaza [HM]

malambe n. m. fruto do embondeiro, Adansonia digitata.
Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, propõem uma forma alternativa, melamba, e dão a palavra como sendo de origem nhúnguè.

malta n. f. colectivo (seguido de nome de pessoa) grupo de amigos habituais de (“Passei pelo Piri-Piri, estava lá a malta Cilinha.”)
Colaboração de Miguel e Soraia, Maputo. Evidentemente, a palavra malta mantém aqui o seu significado habitual noutras variantes do português. O moçambicanismo é a construção, em que se omite “amiga de” ou “que costuma andar com”: a malta Miguel, a malta Soraia, etc.

malemo n. m. Hist. piloto de navio [HM]

mamana n. f. senhora; mãe
O termo encontra-se registado como moçambicanismo tanto no dicionário Porto Editora como no dicionário Priberam online. O dicionário Porto Editora propõe como étimo o ronga mamana. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende confirmam esta proposta, propondo o termo mamani, comum às línguas tsonga.

mambo n. m. chefe tradicional

mamparra n. e adj. (pessoa) incompetente, inexperiente, ignorante
Em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, refere-se uma provável origem malaia, baharu. O termo teria entrado nas línguas da África Austral através do fanagaló (pidgin das minas da África do Sul). Segundo Jan Rydzak, baharu significa “novo”, em malaio.

manamambo n. m. Hist. funcionário africano de um prazo, com funções de gestor [HM]

manâmbua, muanâmbua n. e adj. 2 gén. mau, malvado, safado, filho da mãe; ordinário
Contribuição de Maria João Couceiro, Cacém, Portugal. Hildezina Dias, no seu Minidicionário de Moçambicanismos, diz que o termo é chuabo; Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, referem que o termo é comum às línguas sena e nhúnguè, entre outras, e significa literalmente “filho de cão”. De facto, em sena pelo menos, significa apenas cão (obrigado a Alexandre Antunes pelo reparo), por muito que etimologicamente seja composto pelos elementos filho e cão.

mangungo n. m. merenda, sobretudo o farnel que se leva para o trabalho
O Minidicionário de Moçambicanismos de Hildozina Dias diz que a palavra é de origem ronga (mangunngu). Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, refere que a palavra é comum ao ronga e ao changana.

maningue adj. e adv. muito
Maningue é um dos moçambicanismos mais famosos, se não mesmo o mais famoso. O dicionário Porto Editora e o dicionário Priberam online registam ambos a palavra. A palavra maningue é comum a várias línguas locais, como assinalam Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, dando o exemplo de manyingui na línguas tsonga. Mas sei que a palavra é também usada em ndau, por exemplo. Segundo estes autores, as palavras de línguas bantas de que deriva o maningue do português moçambicano vêm, por sua vez, do inglês many, “muito”. Todos os dicionários consideram maningue um advérbio, e o dicionário Porto Editora considera também que a palavra pode ser um pronome. Presumo que esta classificação de “pronome” corresponda à minha ingénua classificação de “adjectivo”(igual, aliás, à que propõem Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos) em frases como “estava lá maningue malta” ou “estavam lá maningues pessoas”.

mantacassa n. f. neuropatia tropical, doença causada pela ingestão de certos tipos de mandioca [MC]

mapira n. f. cereal da família dos sorgos, como o Sorghum vulgare ou o Sorghum bicolor arundicaeum (mapira brava)
Segundo Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, o termo maphira é comum a várias línguas do país. O dicionário Porto Editora regista correctamente a palavra como moçambicanismo, mas o Priberam online restringe o seu uso à Zambézia, o que é incorrecto.


mapira

maquela n. f. variedade de mandioca [MC]

marrabenta n. f. tipo de dança e música do Sul de Moçambique, sobretudo da zona de Maputo
Tanto Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, como o dicionário Porto Editora confirmam a origem comummente apresentado para a palavra: o português rebenta, como grito de incitamento.

marreco n. m. tipo de peixe da costa oriental da África Austral, Chrysoblephus puniceus [CVM]


marreco

massa 1. n. f. papa de farinha e água, usada como acompanhamento, chima, sadza, úchua
Por se designar muitas vezes este acompanhamento como massa, especifica-se massa esparguete ou massa macarrão quando se fala do que se designa como massa noutras variantes do português.

massa 2. n. m. zimbabueano branco (do inglês master, “senhor; dono”)

massala n. f. fruto da massaleira

massaleira n. f. tipo de árvore, Strychnos spinosa


massaleira com massalas

mata-boi n. m. barra de protecção dianteira para automóveis, abaixo do pára-choques

matabichar v. i. tomar o pequeno-almoço

mata-bicho, matabicho n. m. 1. pequeno-almoço 2. gorjeta, saguate

mataca n. f. barro usado como reboco de casas
Contribuição de Maria João Couceiro, Cacém, Portugal. Sei que a palavra existe em macua, mas talvez exista em mais línguas moçambicanas. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, dá outro significado do termo, o de “terra vermelha e barrenta, nalguns casos sinónimo de matope”.

matacanha, mataquenha n. m. insecto parasita que se aloja nos pés, Tunga penetrans.
A mesma palavra usa-se em Angola.


pé com matacanha

matacar, maticar v. t. cobrir de lama a estrutura de madeira de uma casa; rebocar a barro (matacar do macua matthaka, “lama”, maticar provavelmente de outra língua moçambicana)
Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, só dá a forma maticar, embora tenha uma entrada mataca, “terra vermelha e barrenta”. Ouvi também maticar no sentido de “tomar nota, pôr no rol; escrever, assentar”, mas só no Alto Molócuè, não sei se a expressão se usa de facto nesse sentido.

mataco n. m. traseiro, nádegas
Contribuição de Maria João Couceiro, Cacém, Portugal. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, dá o termo como sendo comum no centro do país. 

matacuzana n. f.? jogo, sobretudo de crianças, em que se atiram algumas pedrinhas ao ar e se tenta apanhar outras pedrinhas antes de elas caírem; jogo das cinco pedrinhas (do ronga mathakusana, “id”.?)

matambira n. (f.?) dinheiro
Contribuição de Maria João Couceiro, Cacém, Portugal. Segundo Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, a palavra é de origem ndau, e pode também ter o significado mais específico de “salário do funcionários público”.

matapa n. f. espécie de esparregado de folhas de mandioca, com amendoim, e às vezes coco, camarão seco ou caju
Embora alguns puristas defendam que a verdadeira matapa é a de folhas de mandioca, usa-se muitas vezes a designação de matapa para outros tipos de esparregado ou preparados com folhas que não são realmente matapa. Lopes, Sitoe e Nhamuende referem, em Moçambicanismos, a matapa de folhas de aboboreira e de folhas de feijoeiro. O dicionário Porto Editora tem uma definição correcta do termo e dá-o como vindo do ronga mathapa. Já o dicionário Priberam online define matapa apenas como “prato típico do Sul de Moçambique”.

mata-peixe n. m. planta da família das leguminosas, Tephrosia vogelii
matchessa, matchesa n. f. palhota pequena no quintal de uma casa, geralmente com paredes abertas, de caniço ou outro material leve, para descansar, comer ou beber, perron (do chona)

matical, mitical, metical n. m. Hist. medida de ouro equivalente a cerca de 155 onças ou 4, 34 kg (do árabe mithqal, “id.”) [HM]
É desta antiga medida de ouro que vem o nome da actual moeda de Moçambique, o metical. A definição de José Roberto Braga Portella é diferente: peso para matérias preciosas, comummente ouro, equivalente a 24 quilates ou 96 grãos. (Descripçoens, Memmórias, Noticias e Relaçoens, Administração e Ciência na construção de um padrão textual iluminista sobre Moçambique, na segunda metade do Século XVIII, Cutitiba: CEDOPE, 2006) .

matope n. m. lama; lodo (de matope, plural de ntope, “id.” (os massivos têm a forma do plural), comum a várias línguas da região)
A palavra lama é raríssima em Moçambique. Diz-se sempre matope. O dicionário Priberam online diz que matope é, em África, “lodo endurecido onde se desenvolvem os mangais”. O dicionário Porto Editora diz que matope é um “terreno negro e impróprio para agricultura”. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, dá, além do sentido de “lama”, o de “terra barrenta e, por vezes, avermelhada”. A verdade é que a palavra se utiliza quase sempre simplesmente no sentido de “lama”, sem mais: em qualquer lado, de qualquer cor lama.

matoritori, matoretore, matorritorri [acentuação na penúltima sílaba em todas as variantes] n. m. doce de açúcar e coco, semelhante à patanícua
Segundo Hildizina Norberto Dias, no seu minidicionário de Moçambicanismos, o termo é ronga e tsua.

matrecar v. i. i ser saloio, ter mau gosto; v. t. 1. enganar, fazer parvo de 2. deixar ficar mal, deixar mal visto (do português popular matreco, prov. de matrecos, abrev. de matrequilhos, forma popular de matraquilhos, “futebol de mesa”, por sua vez de matraca, pelo barulho que faz)
O termo parece ter tantos significados que é difícil dar um descrição precisa de todos. É de notar que todos eles se podem fazer derivar claramente da expressão portuguesa matreco, com o sentido de “saloio, bimbo, pessoa de mau gosto, ignorante”. Assim, matrecar como intransitivo é “ser matreco”, simplesmente, e o primeiro sentido de matrecar transitivo é “tomar por matreco”, donde derivam os outros. Contribuição de Luís Santos, Maputo.

matsanga, matsangaíssa, matsangaíça n. m. combatente, membro ou simpatizante da Renamo, durante a guerra entre este movimento e o governo da Frelimo (do nome próprio André Matsangaíssa, primeiro líder da Renamo)
Contribuição de Ricardo.

mazione n. membro de uma das igrejas zionistas cristãs da África Austral (de ma + zione, de Zion, cidade do Estado de Illinois, EUA, onde foi fundada a Christian Catholic Apostolic Church, que deu origem às igrejas zionistas da África Austral (veja artigo da Encyclopædia Britannica sobre estas igrejas, em inglês))

mboa n. f. tipo de legume do género Amaranthus, amaranto, nheue
Segundo o Minidicionário de Moçambicanismos de Hildezina Norberta Dias, o termo é de origem ronga e changana.

metical n. m. unidade monetária de Moçambique (de matical)

mexe-mexe n. (m.?) infecção na vista, conjuntivite
Contribuição de Miguel, Maputo. O termo está registado em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, com o mesmo significado. Sobre o processo de formação, ver texto Redobro ao fundo do glossário.

mexoeira, às vezes também meixoeira n. f. designação de vários tipos de milho-miúdo ou milho painço, nomeadamente Pennisetum glaucum, Pennisetum typhoides (mexoeira-de-junco) e Eleusine coracana (mexoeira-de-dedo)
A palavra aparece registada no dicionário Porto Editora como “grande árvore africana”. Tratar-se-á de uma confusão? Ou haverá realmente uma árvore com o mesmo nome?


mexoeira

micaia n. f. nome comum a várias espécies de arbustos espinhosos do género Acacia
 

milando n. m. problema, confusão, briga, disputa, maca, timaca
Todos os dicionários consultados, excepto o Michaelis, registam o termo como moçambicanismo. Mallyn Newitt, em A history of Mozambique, diz que milando é um crime ou quebra da tradição implicando o pagamento de uma multa. Pensei que se tratasse de um significado histórico, já desaparecido, que tivesse dado origem ao significado que milando tem em português de Moçambique actualmente. Em Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, há, porém, uma explicação de carácter antropológico que mostra que esse significado antigo ainda se mantém: “Nas línguas de origem [cópi, changana, ronga], o significado de problema [das palavras donde provém a palavra milando] está associado ao de tomada de decisão. Na essência, os termos bantu significam problema para o qual já existe uma tomada de decisão, sendo esta acompanhada de uma estimativa da reparação dos danos. No caso de ainda não se ter chegado a nenhuma decisão, este problema é referido em línguas bantu como timhaka [timaca]. Em suma, o problema começa por ser timhaka quando é apresentada a queixa em público (...), em seguida é discutido na banja, na qual se toma uma decisão, tornando-se assim a timhaka em milando”. Se houver alguma relação entre makha e timhaka, e, consequentemente, entre as palavras maca e timaca deste glossário, há que recusar a hipótese da origem angolana de maca.

miombo n. m. tipo de paisagem (designação completa floresta de miombo) onde predominam as árvores da subfamília Caesalpinioideae (do suaíli miombo, nome de uma árvore, ver comentário)
A palavra miombo não é um moçambicanismo em sentido estrito, mas antes a designação técnica comum de um tipo de paisagem, que, embora não se aplique exclusivamente a paisagens moçambicanas (há também miombo em Angola, no Burúndi, na República Democrática do Congo, no Maláui, na Tanzânia, na Zâmbia e no Zimbábuè), decidi incluir aqui porque pode ser importante em textos sobre Moçambique e porque é o tipo de paisagem predominante em Moçambique. O nome da paisagem deriva da palavra suaíli para designar o género de árvores Brachystegia, que tem diversas espécies.


miombo

missanga n. f. (contável ou massivo) conta colorida (de colar)
Embora seja conhecido e usado noutras variantes do português, é possível que o termo seja de origem moçambicana. Lopes, Sitoe e Nhamuende referem-no, no seu Moçambicanismos, sem indicar a origem; e o dicionário Porto Editora diz que vem do tetense [sic no dicionário, nhúnguè?, nhanja?] maussanga, plural de u(s)sanga, “id.”.

missonco n. m. Hist. tributo, mussoco [HM]

mitombo n. m. remédio, mezinha
Contribuição de Maria João Couceiro, Cacém, Portugal. O Dicionário Porto Editora regista o moçambicanismo, dizendo que vem das línguas de Sofala. Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, acrescenta-lhe ainda o sentido de amuleto e especifica uma origem ndau.

moageira n. f. moagem (de cereais); máquina de moer cereais
Não se trata de um moçambicanismo em sentido estrito, já que o substantivo é usado pelo menos também em Angola e no Brasil (às vezes com um sentido mais abrangente), mas uma pesquisa rápida em Google indica claramente que é muio mais usado em Moçambique.

moçambaz, muçambaz, massambaz n. m. Hist. negociante africano
Moçambaz está registado no dicionário Priberam e no dicionário Aulete, no primeiro como sinónimo apenas de pombeiro e no segundo como moçambicanismo significando pombeiro. O Aulete regista a variante muçambaz, indicando que é talvez preferível a moçambaz. Encontrei a forma muçambaz num texto de António Norberto de Barbosa Vilas-Boas Truão (muito provavelmente uma passagem de Estatisticas da capitania dos rios de Senna do ano de 1806, Lisboa: Ministério dos Negocios da Marinha e Ultramar, 1889) citado online por Adelto Gonçalves e definido pelo mesmo Adelto Gonçalves como “negro que ia mercadejar no interior”. A variante massambaz é registada por José Roberto Braga Portella (Descripçoens, Memmórias, Noticias e Relaçoens, Administração e Ciência na construção de um padrão textual iluminista sobre Moçambique, na segunda metade do Século XVIII, Cutitiba: CEDOPE, 2006, Tese de Doutoramento) que dá de massambazes a seguinte definição: “escravos fiéis, que faziam expedições comerciais de longa distância pelos sertões, por conta de um mercador. 

mocazambo n. m. Hist. chefe de um grupo de escravos [HM]

mola n. f. dinheiro

moluene n. m. menino da rua (do ronga molwene, do português esmola)

mongo n. m. amêndoa do cajueiro [LP]

monhé, muenhé adj. e n. indiano (de várias línguas do Norte do país e suaíli, monye e mwenye, “senhor”)
Eis uma palavra de origem moçambicana que se instalou no português europeu. Tal como em Portugal, o termo tem muitas vezes uma conotação pejorativa, o que não deixa de ser curioso dada a sua origem num tratamento de respeito.

morador n.m. Hist. residente não africano em território português [HM]
Malyn Newitt diz que a designação se aplica sobretudo aos portugueses ou afro-portugueses da Ilha de Moçambique. O termo é também referido por José Roberto Braga Portella na sua tese Descripçoens, Memmórias, Noticias e Relaçoens, Administração e Ciência na construção de um padrão textual iluminista sobre Moçambique, na segunda metade do Século XVIII, Cutitiba: CEDOPE, 2006. 

morro de muchém n. m. termiteira


morro de muchém

morrumbala n. f. dique largo e relativamente alto que circunda as localidades ribeirinhas, para proteger das cheias do Zambeze.
Contribuição de Maria João Couceiro, Cacém, Portugal 

muana n. m. rapaz, mufana
O dicionário Porto Editora e o dicionário Priberam online registam o moçambicanismo, apresentando como origem o macua mwana. Em chona, rapaz também se diz mwana.

muâni adj. e n., muitas vezes grafado mwani grupo étnico de Cabo Delgado; a sua língua; relacionado com este grupo étnico ou com a sua língua

muave n. m. Hist. teste de inocência pela ingestão de veneno [HM]

mucapata n. f. prato zambeziano feito de feijão soloco pilado com arroz e leite de coco

muchém n. f. s., massivo térmites, Isoptera spp.
O dicionário Priberam online define o moçambicanismo muchém como “formiga branca; térmite; montículo feito pela térmite”. Há aqui uma incorrecção: muchém só designa o animal, a termiteira chama-se morro de muchém. O dicionário da Porto Editora considera muchém um africanismo, definindo-o da seguinte forma: “Nome que, na África, se dá à formiga-branca (salalé) e aos seus montículos”. Incorre, pois, no mesmo erro ‑ a não ser que, noutros países de língua portuguesa de África, a palavra designe também a termiteira.

mucunha n. (adj.?) pessoa branca, maguerre, mulungo, muzungo, xicaca (do macua mukunya, “patrão”)

muene n. m. 1. Hist. chefe eleito das comunidades islâmicas [HM] 2. chefe tradicional, acima de um samassua

mufana n. m. rapaz, muana
O dicionário Porto Editora regista o termo, apresentando como origem o ronfa mu-fana.

mujelejele n. (m. ?, f. ?) tipo de árvore [GL ]

mulala n. f. planta (Euclea natalensis), cuja raiz é usada como dentífrico (de várias línguas da região)

mulungo n. (adj.?) pessoa branca, maguerre, mucunha, muzungo, xicaca (de várias línguas moçambicanas)
Segundo Lopes, Sitoe e Nhamuende, em Moçambicanismos, o termo vem do xhosa (u)mlungu, que deu inlungo em cópi e mulungu em changana, ronga e tsua. Acrescentam que teria havido, quando o termo entrou no português de Moçambique, um processo de restrição semântica, porque, “o termo, nas línguas bantu significa indivíduo de cor branca, pessoa de bom carácter, mas também, e depreciativamente, indivíduo racista.” A origem última da palavra mulungo é discutida. Bela Meneses, de Lisboa, escreveu-me dizendo que a palavra, na origem, não quer dizer “branco”, mas sim “aquele que sabe” ou “o que tem poder” e relaciona a palavra com ku-lunga, “ser bom”, “ser justo”. É esta também a teoria do etnólogo e linguista Henry-Alexander Junod, que Rodrigo de Sá Nogueira discute, no seu Dicionário de Ronga. Nogueira não considera que a explicação de Junod seja convincente e acha também insatisfatório propor uma relação de palavra com ñwa-lungu, “norte”. Outra hipótese, também referida por Nogueira, e que já ouvi e li defendida por algumas pessoas, é relacionar a palavra com o significado que mulungu tem de “deus” em várias línguas bantas. Segundo essa teoria, esse sentido original, teria dado, depois, o de “senhor”, passando a palavra a referir todas as pessoas com poder.

muquerista n. comerciante transfronteiriço informal, pessoa que pratica o muquero

muquero n. m. comércio transfronteiriço informal, no Sul do país, com a Suazilândia e com a África do Sul
Na sua obra Moçambicanismos, Lopes, Sitoe e Nhamuende propõem que a palavra, grafada mukhero por estes autores, derive, em última análise do inglês carry, “transportar”, e que tenha sido importada para o português e para as línguas do Sul do país do zulo e do siSwati. O muquero é considerado uma prática sobretudo, mas não exclusivamente, de mulheres.

mussambaz n. m. Hist. comerciante africano, ao serviço de um senhor ou não [HM]

mussenze n. m. Hist. camponês africano livre na área de um prazo, colono [HM]

mussiro n. m. 1. tipo de árvores, Olax dissitiflora 2. pasta cosmética feita a partir da planta do mesmo nome (do macua)

mussito n. m. Hist. tipo de fortificação do séc. XVIII, paliçada, chuambo (séc. XVII), aringa (séc. XIX) [HM]

mussoco n. m. Hist. tributo, missonco [HM]

mussopo, messopo, msopo n. m. (regionalismo de Sofala?) peixe-gato, peixe com bigodes e sem escamas
Colaboração de Victor Azevedo, Coimbra

muzungo, mzungo n. 1. (adj.?) pessoa branca, maguerre, mucunha, mulungo, xicaca 2. Hist. senhor afro‑português [HM] (de várias línguas do Norte do país)
O termo está registado em vários dicionários, com definições nem sempre coincidentes. Tanto o Dicionário Porto Editora como o Dicionário Priberam (versões online) registam muzungo como moçambicanismo. O primeiro define o termo como “português europeu branco” e o segundo como “nome dado na Zambézia (Moçambique) ao português” ou “europeu, branco”. Segundo Moçambicanismos, de Lopes, Sitoe e Nhamuende, muzungo significa “senhor; pessoa de cor branca” e tem origem no sena e no nhanja. O Dicionário Porto Editora propõe uma origem suaíli. De facto, o termo, comum a várias línguas bantas (em Moçambique, é igual em suaíli, muâni, cheua, nhanja e sena), tornou-se conhecido internacionalmente sobretudo através do suaíli. É possível que seja o suaíli a origem última do termo. Uma etimologia comummente proposta é a que é apresentada na entrada mzungu da Wikipedia en inglês (http://en.wikipedia.org/wiki/Mzungu, traduzo eu): “de uma contracção de palavras que significam “uma pessoa que anda sem destino” (das palavras suaílis zungu, zunguzungu, zunguka, zungusha, mzungukaji, que significam “andar às voltas”; do ganda okuzunga, que significa “andar sem destino”) e foi cunhada para descrever os exploradores, missionários e comerciantes de escravos que viajavam nos países da África Oriental no séc. XVIII”. Muito obrigado a Álvaro Campos de Carvalho pela sua colaboração relativamente a esta entrada.

4 comentários:

  1. Gostei muito deste Blog, parabéns. Irei enviar algumas alterações e possivelmente mais termos para enriquecer o "dicionário".

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  2. catiajuliaosavanguane@hotmail.com20 de Setembro de 2013 às 16:11

    Gostei do artigo, deu pra explorar bem as informacoes, se bem que precisa de mais enriquecimento, algo que eu tambem possa fazer dando mais contribuicoes. Parabens a todos colaboradores que tornaram este artigo possivel!

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  3. muito obrigada. Este artigo avivou minhas memórias do tempo que vivi (nasci) em Maputo, antiga Lourenço Marques, muitas delas reconheci como do dialeto da area da capital de Moçambique, clao que há muitas mais mas, presumo que as do artigo são de todo o território.Moçambicano onde pervalecem muitos dialetos.

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  4. Cara Odete,
    Muito obrigado eu, pelo seu interesse e pelo elogio. Presumo que, quando diz dialeto da área da capital, se esteja a referir a uma das línguas mais faladas em Maputo, além do português: o ronga, que é a língua da zona, e o changana, que, creio, tem ainda mais falantes, devido às migrações. O propósito deste glossário, porém, não é fazer um apanhado de termos das línguas moçambicanas, o que seria uma tarefa sem sentido, de tão vasta que é (cerca de dezena e meia de línguas com dezenas de milhares de palavras cada uma), mas antes ir compilando palavras exclusivas ou originárias do português de Moçambique, independentemente da sua origem. Muitas das palavras de origem banta que aqui encontra estão já registadas em dicionários de português.
    Muitos cumprimentos

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Instabilidade no uso dos pronomes objecto

O português de Moçambique está a atravessar uma fase de grande instabilidade no que diz respeito ao uso dos pronomes objecto.

Quanto à colocação do pronome na frase, observa-se às vezes uma tendência para a anteposição do pronome relativamente ao verbo, como no português do Brasil (“Eh, pá, você me está a insultar, ou quê?”) e às vezes uma tendência para a posposição do pronome em situações em que tal não aconteceria nem no português europeu nem no português brasileiro (“Como ela chama-se?”).

Além disso, há grande instabilidade na escolha das formas de acusativo e dativo. Por influência da estrutura das línguas bantas, a tendência é cada vez mais usar sempre lhe(s) quando o pronome refere pessoas, independentemente de se usar com um verbo transitivo directo ou não: “A Ermelinda já chegou da Beira; encontrei-lhe ontem à noite na rua”.

Construção com nem em início de frase

Ao contrário do que acontece noutras variantes do português, nas frase iniciadas com nem, com o sentido de “nem sequer”, coloca-se um não antes do verbo: “estava teso, nem dinheiro para beber uma cerveja não tinha”. A construção também é usada pelos moçambicanos que têm o português como língua materna.

Redobro no português de Moçambique

Chamo redobro à duplicação consecutiva de uma unidade lexical.

Em português, usa-se o redobro de nomes e adjectivos (“ele é doido doido” ou “isto é que é medronho medronho”), de quantificadores, em frases negativas (“não gosto muito muito”, “não é assim tanto tanto…”) ou de formas verbais, para formar nomes (chupa-chupa).

Em Moçambique, há algumas destas formas com redobro de forma verbal para formar nomes que não são utilizadas no português europeu. Dois exemplos de que me lembro são ganho-ganho, que significa trabalho remunerado monetariamente, por oposição aos sistemas de ajuda mútua, e mata-mata, para referir o jogo infantil que em Portugal se chama apenas mata.

Usa-se também muito o redobro do quantificador pouco para formar um adverbial pouco-pouco, que significa “pouco a pouco”, “devagarinho” (“Como vão as obras lá de casa?” “Iá, mas estamos a fazer pouco-pouco”), mas é provável que não se trate de um verdadeiro redobro, mas antes do apagamento do a, que é comum em Moçambique: “Estou pedir” em vez de “estou a pedir”, “garrar” ou “cabar” em vez de agarrar ou acabar, etc.

Finalmente, outro uso muito moçambicano do redobro é o que se faz com numerais, quando se fala de preços, para significar “cada um”:
- A como está a folha de abóbora?
- Está (a) mil mil (=mil meticais [antigos] cada molho).
ou
- A como estão os cigarros? [em Moçambique, vendem-se na rua cigarros avulsos]
- Quinhentos quinhentos (=cinquenta centavos cada).

Pronúncia do português em Moçambique

Português língua materna

A pronúncia dos moçambicanos de língua materna portuguesa da 1ª geração (isto é, os que já tinham o português como língua materna na altura da independência) é muito parecida com a do português europeu, muitas vezes indistinguível. Dois traços que podem às vezes caracterizar o sotaque desses moçambicanos são a pronúncia “dura” de d e g entre vogais (ou seja, pronunciar da mesma forma os dois dd de dado ou os dois gg de gago) e pronunciar como um j o s entre vogais quando este liga duas palavras (ou seja, pronunciar “’tás a fazer” [tàjafazer] em vês de [tàzafazer]) [o que também pode acontecer, aliás, em algumas zonas de Portugal]. Os rr são sempre vibrantes alveolares e nunca guturais.

A mesma pronúncia muito próxima da pronúncia europeia mantém-se entre as elites de língua materna portuguesa das gerações seguintes (normalmente em pessoas com pais de língua materna portuguesa) e sobretudo em Maputo, que é onde há maior percentagem de falantes de português como língua materna ou de nível elevado como língua segunda.

Há muitos casos, porém, em que os moçambicanos que agora têm o português como língua materna não têm pais de língua materna portuguesa, mas antes que utilizam o português como língua de comunicação entre eles (por exemplo, pai chuabo, mãe maconde) e que, muitas vezes, vivem num meio onde o português é falado como língua de comunicação. Nestes casos, há fortes influências da pronúncia da língua da zona onde a pessoa vive e a sua pronúncia é muito parecida com a das pessoas da zona que falam o português como língua segunda ou estrangeira.

Português língua segunda ou estrangeira

É muito difícil fazer uma descrição unificada da pronúncia do português como segunda língua ou língua estrangeira, porque essa pronúncia difere, naturalmente, de região para região, em função da língua materna das pessoas. Há, porém, alguns traços comuns a muitas línguas bantas (alguns a todas), que posso aqui apontar:

• Ausência de encontros consonânticos típicos da pronúncia europeia ou impossibilidade de ocorrência no fim da palavra de determinadas consoantes. Neste sentido, muitos moçambicanos falam “como” os brasileiros ou os espanhóis – para dizer stress, pneu ou afta, por exemplo, introduzem uma vogal entre as consoantes: e também pode acontecer introduzirem um som vocálico, por exemplo, entre o s e o n da sequência mas nada...

A e e abertos: em geral, não há, nas línguas bantas, vogais fechadas e muito menos ee mudos, o que faz com que o [â] se pronuncie [á] e o e átono se pronuncie [i] ou [ê].

• Troca de [l] por [r], e das consoantes surdas [p], [t] e [k] pelas sonoras correspondentes [b], [d] e [g] e vice-versa. Em muitas línguas, as versões surdas e sonoras das oclusivas não são entendidas como sons diferentes, mas como variantes do mesmo som, consoante os sons que têm antes ou depois. Um exemplo extremo deste fenómeno é pronunciar [progo] a palavra bloco, como eu uma vez ouvi.

• Em várias regiões, pronúncias explosivas do t, e com a língua mais acima, como em inglês.

• Ausência de distinção entre o r simples e o r múltiplo, isto é, entre caro e carro.

• Erros de hipercorrecção: como têm consciência de que uma pronúncia “correcta” deve ter ee mudos, alguns moçambicanos fecham ee que nós abrimos em português europeu e que constituem excepção à regra de fechar todos os ee átonos. Assim, vamos ouvir pessoas que, por hipercorrecção, pronunciam esquecer [shkcer] em vez de [shkècer], por exemplo.

Deixo-vos também um link para um texto meu no meu blogue Travessa do Fala Só em que discuto uma questão de pronúncia do português em Moçambique.

Particularidades da voz passiva

Por influência da estrutura das línguas bantas, fazem-se, com muita frequência, frases passivas cujo sujeito é o objecto indirecto das frases activas que lhes correspondem. Diz-se, por exemplo, que “aquela associação de camponeses agora foi dada insumos por uma ONG suíça” ou que “nós fomos pedidos estar lá às 15 horas”.

Trata-se de uma tendência muito forte, que se começa a observar também nas novas gerações de moçambicanos de língua materna portuguesa. É provável, portanto, que se venha a afirmar como característica do português de Moçambique.

A questão dos brasileirismos

Nicole Gazonato, de São Paulo, teve a gentileza de me enviar uma lista de palavras que encontrou no glossário e que diz existirem também no Brasil. É-me impossível determinar se essas palavras foram efectivamente importadas do português do Brasil pelos moçambicanos falantes de português ou se se trata antes de coincidências, expressões surgidas independentemente em Moçambique, que, por acaso, são iguais a expressões brasileiras. É indubitável que há hoje uma grande influência do português do Brasil no português moçambicano, mas creio que algumas das expressões listadas por Nicole Gazonato existiam em Moçambique antes de essa influência existir – o que não significa que não possam, ainda assim, ter sido importadas do português brasileiro. Eis a lista das palavras referidas por Nicole Gazonato, a quem muito agradeço a sua colaboração, algumas com os seus exemplos ou comentários. Para mais informações (por exemplo, em que sentido ou uso é que estas palavras são moçambicanismos e/ou brasileirismos), ver a entrada das palavras listadas:

amanhecer
Ex. A comida amanheceu fora da geladeira; Amanheci esta noite na internet
cana (doce) "Cana no Brasil também é usado para se referir exclusivamente à cana de açúcar, usando-se bambu para se referir aos outros tipos de cana."
capaz Ex. Capaz de ele vir aqui em casa hoje = De jeito nenhum ele virá, ou Duvido que ele venha
capinar
checar
concunhada, concunhado
desenho
djô
empoderamento
emprestar
ficar Ex. Fiquei em duas matérias; Fiquei de português
flat "Usa-se flat para se referir a apartamentos, principalmente os de pouca metragem, mas não de baixo padrão"
gelinho "Também geladinho, dependendo da região do país."
gingar
papudo "[No Brasil], pode-se usar num sentido mais positivo também, como uma pessoa boa de "papo", com boa lábia."
postar
sabão
saúde
tia, tio
ventar